Deixo-vos com a parte final de "A Casa de Bernarda Alba", peça escrita por Federico García Lorca no ano de 1936 (também o ano da sua morte). Uma peça que é uma tragédia. Como disse o autor, uma tragédia que nada mais é do que a tragédia das mulheres das aldeias espanholas que se encontram presas aos imensos preconceitos que as impedem de viver, na sua plenitude, os sentimentos mais nobres. Mulheres acorrentadas a ideias ou valores sociais pré-concebidas/pré-concebidos que nada mais fazem do que as castrar, gerando situações de imensa hipócrisia cujo resultado é o aniquilamento de si próprias.
O excerto que se segue é uma amostra disso mesmo, do que pode causar em termos familiares em geral e individuais em particular.

LA PONCIA (sempre com crueldade)
Bernarda: aqui passa-se qualquer coisa de extraordinário. Não te quero lançar as culpas, mas tu não deste liberdade às tuas filhas. Martírio é namoradeira, digas lá o que disseres. Por que não a deixaste casar com o Henrique Humanas? Por que é que no mesmo dia em que estava combinado ele vir falar-lhe à janela lhe mandaste recado para que não viesse?
BERNARDA
Tornava a fazê-lo mil vezes. O meu sangue não se junta ao dos Humanas enquanto eu for viva. O pai dele era ganhão!
LA PONCIA
Nunca perdes essas farroncas.
BERNARDA
Tenho-as porque as posso ter. E tu não as tens porque sabes muito bem qual é a tua origem.
LA PONCIA (com ódio)
Não mo recordes. Já sou uma velha. Sempre fui grata à tua protecção.
BERNARDA (altiva)
Não parece!
LA PONCIA (com ódio disfarçado em suavidade)
Martírio há-de esquecer isto.
BERNARDA
Se não o esquecer, pior para ela. Não acredito nessa tal "coisa extraordinária" que se passa nesta casa. Aqui não se passa nada. Isso querias tu! E se um dia alguma coisa houver, fica certa de que não atravessará estas paredes!
LA PONCIA
Lá isso não sei. Na aldeia há mais quem saiba ler no pensamento dos outros.
BERNARDA
Ah, como gozarias se nos visses, a mim e às minhas filhas, no meio das mulheres perdidas!
LA PONCIA
Ninguém sabe o seu destino!
BERNARDA
Pois eu, sim, eu sei o meu! E o das minhas filhas! (...)
(...)
LA PONCIA
Talvez seja melhor não me meter em nada.
BERNARDA
É isso o que deves fazer. Trabalhar e boca calada. É essa a obrigação dos que trabalham para os outros.
LA PONCIA
Mas não pode ser. Não achas que Pepe estaria melhor casado com a Martírio ou... sim!, com a Adela?
BERNARDA
Não me parece!
LA PONCIA
Adela. Essa, sim, é que é a verdadeira noiva do Pepe!
BERNARDA
As coisas nunca correm a nosso gosto.
LA PONCIA
Mas custa muito uma pessoa não seguir a sua verdadeira inclinação. A mim parece-me mal ver o Pepe com a Angústias! E a toda a gente! Até ao ar! Quem sabe o que virá a acontecer...
(...)
MARTÍRIO (em voz baixa)
Adela! (Pausa. Avança até à porta. Em voz alta.) Adela!
(Entra Adela. Vem um pouco despenteada.)
ADELA
Que é que queres?
MARTÍRIO
Deixa esse homem!
ADELA
Que autoridade tens tu para me falares assim?
MARTÍRIO
O teu procedimento não é de uma mulher honrada!
ADELA
O que te dói sei eu: é não poderes fazer o mesmo!
MARTÍRIO (em voz alta)
Vou contar tudo! Isto não pode continuar assim!
ADELA
E ainda estamos no começo. Eu cheguei primeiro, minha invejosa. Tive a coragem que te falta. Fugi da morte que paira nesta casa e fui procurar o que era meu, a vida que me pertencia!
MARTÍRIO
Esse homem sem alma veio por causa de outra, e tu atravessas-te no caminho!
ADELA
Veio pelo dinheiro, mas nunca tirou os olhos de mim.
MARTÍRIO
Não consentirei que o roubes! Há-de casar-se com Angústias.
ADELA
Sabes tão bem como eu que ele não a quer.
(...)
ADELA
Por isso é que não queres que eu vá ter com ele. Que te importa que ele beije uma mulher de quem não gosta?! A mim, também, que me importa! Pode viver à vontade cem anos com a Angústias. Mas que me beije a mim isso faz-te uns ciúmes terríveis, porque também gostas dele, também o queres!
MARTÍRIO (dramática)
Sim! Confesso-o sem vergonha. Sim! Posso rebentar de amargura, mas é verdade: adoro-o!
(...)
BERNARDA
Acabem com isso! Que miséria a minha, não poder ter um raio para as fulminar!
MARTÍRIO (apontando Adela)
Esteve com ele! Olhe como ainda tem as saias cheias de palhas!
BERNARDA
A palha é a cama das desgraçadas!
(Dirige-se furiosa para Adela.)
ADELA (fazendo frente à mãe)
Acabou-se a prisão! (Adela tira a bengala das mãos da mãe e parte-a em duas) Veja o que faço à sua tirania. Não dê nem mais um passo. Em mim só manda o Pepe!
(...)
BERNARDA
A espingarda! Onde está a espingarda?!
(...)
ADELA
Ninguém poderá vencer-me!
ANGÚSTIAS (dominando-a)
Não sais daqui com esse ar de triunfo! Ladra! Desonra da nossa casa!
MADALENA
Deixa-a, que vá para onde nunca mais a tornemos a ver.
(Ouve-se um tiro.)
BERNARDA (entrando)
Anda, vai agora procurá-lo!
MARTÍRIO (entrando)
Acabou-se o Pepe Romano!
ADELA
Pepe! Meus Deus! Pepe!
(Sai correendo.)
LA PONCIA
Mataste-o?
MARTÍRIO
Não. Fugiu a cavalo.
BERNARDA
A culpa não foi minha. As mulheres não sabem apontar.
MADALENA
Por que disseste então que o mataste?
MARTÍRIO
Para me vingar dela! Era capaz de fazer correr rios de sangue!
LA PONCIA
Maldita!
MADALENA
Excomungada!
BERNARDA
Foi melhor assim. (Ouve-se um ruído.) Adela! Adela!
LA PONCIA (à porta)
Abre!
BERNARDA
Abre! Não penses que estas paredes podem esconder a tua vergonha!
CRIADA (entrando)
Os vizinhos já acordaram!
BERNARDA (em voz baixa como um rugido)
Abre, se não arrombo a porta! (Pausa. Tudo continua em silêncio.) Adela! (Afasta-se da porta.) Tragam um martelo!
(La Poncia dá um empurrão à porta e entra. Ao entrar dá um grito e sai.)
BERNARDA
Que é?
LA PONCIA (levando as mãos ao pescoço)
Deus queira que nenhuma de nós tenha um fim como este!
(As irmãs recuam. A Criada benze-se. Bernarda dá um grito e avança.)
LA PONCIA
Não entres.
BERNARDA
Não! Eu não entro! Tu, Pepe, continua a correr, vivo, pela escuridão dos caminhos... Mas um dia cairás! Tirem-na da corda! A minha filha morreu virgem! Levam-na para o quarto e vistam-na como uma donzela. Nem uma palavra do que se passou! Morreu virgem! Ouviram?! Mandem aviso, para que ao amanhecer toquem os sinos.
MARTÍRIO
Foi a única ditosa de nós todas!
BERNARDA
Nada de choros! A morte é preciso olhá-la de frente. Silêncio! (Para outra filha:) Cala-te, já te disse! (Para outra filha:) Guarda as lágrimas para quando estiveres sozinha. Havemos de nos afogar todas num mar de luto. Adela, a filha mais nova de Bernarda Alva, morreu virgem. Ouviram-me?! Silêncio! Já disse: silêncio!
(Federico García Lorca- A CASA DE BERNARDA ALBA)
Li então a última parte da Casa de Bernarda Alba e aproveito para desejar boas festas.
Afixado por: Monalisa em dezembro 19, 2004 08:13 PMTu tens um “dom”. Já sabes qual é?
Jinho, BSHell
Um dos meus heróis,assim como Rafael Alberty em Espanha.Foi pena morrer tão cedo,graças aos fascistas falangistas do ditador Franco que o fuzilaram,uma voz incómoda que teve de ser calada.Já conhecia este excelente texto.Sandra cada vez me surprendes mais.Fica bem, boa semana,beijokas!!!!!!!!!!!!!!!!!
Afixado por: Joao em dezembro 20, 2004 04:07 AMLuta de irmãs pelo mesmo homem; são capazes de tudo... o final foi perfeito (ainda que trágico). A preocupação da mãe pela virgindade da filha prolongando-se após a sua morte... ainda hoje há quem pense assim... pareceu-me que a mãe se preocupou mais com o facto de "manter" a virgindade da filha do que com a sua própria morte...
Um beijinho enorme linda :****