dezembro 18, 2004

(SOBRE A) VANTAGEM HUMANA


(Fotografia de José Marafona)

Oh, mas digam-me: quem foi o primeiro a proclamar, o primeiro a declarar que o homem faz sujeiras só porque não conhece os seus verdadeiros interesses; e que, se for esclarecido, se alguém lhe abrir os olhos para os seus verdadeiros e normais interesses, o homem deixará imediatamente de fazer pulhices, tornar-se-á sem tardança bom e nobre, porque, iluminado por alguém e na posse da consciência das suas vantagens, ele, consequentemente, começará por assim dizer a fazer o bem? Ó criança! Ó bebé puro e inocente! Mas desde quando, em primeiro lugar, em toda essa ceterva de milhares de anos, o homem age apenas movido pela vantagem própria? Que fazer então dos milhões de factos testemunhando que os homens, conscientemente, ou seja, compreendendo totalmente quais são as suas verdadeiras vantagens, as afastaram para segundo plano e se atiraram por outro caminho, se entregaram ao risco, ao deus-dará, sem serem forçados por nada nem por ninguém, mas não querendo contudo seguir o bom caminho e abrindo teimosa e voluntariosamente o outro, difícil, absurdo, procurando-o por entre a escuridão? Significa que tal teimosia e voluntariedade lhes foi de facto mais atraente do que qualquer vantagem... Vantagem! O que é vantagem? Querereis tomar a responsabilidade de definir com toda a precisão em que consiste exactamente a vantagem para o homem? E se suceder que a vantagem humana, em determinada ocasião, consista, não só possível mas precisamente, em desejar para si o pior e não o que mais lhe convém? Se assim for, se tal ocasião pode acontecer, então toda a vossa regra dá em nada. (...) Porque as vossas vantagens são a prosperidade, a liberdade, a tranquilidade, etcaetera, etcaetera; portanto, um homem que, digamos, alerta e conscientemente agisse em contradição com essa lista seria, na vossa e, sem dúvida, na minha opinião, um obscurantista ou um doido varrido, não seria? (...) A nossa própria, livre e independente vontade, o nosso próprio capricho, por mais absurdo e selvagem que seja, a nossa própria vantasia, desenfreada por vezes até à loucura- eis a mais vantajosa das vantagens, a que foi omitida, a que não se encaixa em nenhuma classificação e que permanentemente faz desmoronarem-se todos os sistemas e teorias. Onde foram todos esses sábios buscar a ideia de que o homem precisa de uma qualquer vontade normal e virtuosa? Por que razão fantasiaram eles que é indispensável ao homem uma vontade sensatamente vantajosa? O que o homem precisa é só de uma vontade independente, custe o que custar e leve aonde levar esta independência. E sabe-se lá que diabo de vontade é essa...


(Fiódor Dostoiévski- CADERNOS DO SUBTERRÂNEO)

Publicado por void em dezembro 18, 2004 08:00 PM
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