dezembro 14, 2004

O HOMEM E OS SEUS HÁBITOS


(Fotografia de Bruno Espadana)

Meus senhores, claro que estou a brincar, e eu próprio sei que ando mal ao brincar assim, que nem tudo pode ser levado na brincadeira. Talvez esteja a brincar rangendo os dentes. Senhores, estou atormentado de questões, resolvam-nas por mim. Por exemplo, quereis desacostumar o homem dos seus velhos hábitos e corrigir-lhe a vontade de acordo com as exigências da ciência e do senso comum. Mas como é que sabeis que não só tem de ser possível mas também necessário refazer o homem deste modo? Como chegastes à conclusão de que o desejo humano precisa tanto de ser corrigido? Numa palavra, como sabeis que uma tal correcção trará realmente vantagens ao homem? E, já que é de dizer tudo, por que tendes tanta certeza de que não ir contra as vantagens verdadeiras e normais, garantidas pelos argumentos da razão e da aritmética é de facto muito vantajoso para o homem e de que existe uma lei para toda a humanidade? É que, por enquanto, tal não passa de uma suposição vossa. Admitamos que seja uma lei da lógica, mas talvez não seja uma lei da humanidade. Estareis, meus senhores, a pensar que eu sou doido? Permiti-me uma ressalva. Estou de acordo, o homem é um animal, essencialmente criador, predestinado a aspirar a um fim na vida conscientemente e a dedicar-se à arte da engenharia, ou seja, a abrir para si mesmo um caminho, eterna e ininterruptamente, seja para onde for. Mas talvez lhe apeteça às vezes desviar-se para qualquer lado, precisamente porque é obrigado a abrir esse caminho, e também porque, por mais tolo que seja quem age directamente, talvez lhe aconteça de vez em quando pensar que esse caminho vai sempre seja para onde for e que o principal não consiste em que direcção segue, mas no próprio facto de seguir e em que a criança da boa moral não despreze a arte da engenharia e não se dedique à folga nociva que, como se sabe, é a mãe de todos os males. O homem gosta de criar e de construir caminhos, é indiscutível. Mas por que gosta também apaixonadamente da destruição e do caos? Vá, digam lá!


(Fiódor Dostoiévski- CADERNOS DO SUBTERRÂNEO)

Publicado por void em dezembro 14, 2004 06:43 AM
Comentários

Referente à última questão, julgo que seja por ele (o Homem) ser sadomasoquista... e não somos todos... um pouco? Praticar o bem como forma de prazer pode ser - para o Homem, esse ser constantemente insatisfeito - uma prática com grande tendência ao aborrecimento; já a queda no caos, no abismo de destruíção tende a tornar-se viciante funcionando como estímulo "anormal" e excessivo; ora tudo o que seja "anormal" é diferente, é novo, é desconhecido... talvez seja essa uma das razões pela qual o Homem se sente impelido para o Caos...
Um beijo enorme minha querida Sandra :*** Dostoievsky foi e é, sem dúvida, um dos nossos grandes heróis...

Afixado por: alexandra em dezembro 14, 2004 11:45 AM

Está na nossa natureza...

Afixado por: Distante em dezembro 14, 2004 01:30 PM

Eheheh... sim, é um dos nossos "heróis" literários, Alexandra. Cada vez mais tenho em D. uma referência a não dispensar. De todo!
Quanto à relação Homem-Caos, julgo que temos que ser prudentes no que afirmamos. Caos tem um significado muito profundo, significando a devastação/destruição/inversão total em vertentes várias. O Homem ter atracção pelo desconhecido, pelo diferente, pelo novo é algo diferente, na medida em que estes podem conter, em si ordem, harmonia, paz (ok, o caos terá a sua ordem, poderá dizer-se!).
D., através desta personagem, transmite as ideias de forma muito interessante, desconcertante mesmo, exagerada. A própria personagem reconhece isso, por vezes. Estamos perante um discurso acentuadamente provocador. Um discurso que não nos pode deixar indiferentes pelo que mexe com o que de mais profundo existe no Homem: o seu Ser, dúvidas, interrogações, vontades, desejos, etc...
Estamos, sem qualquer dúvida, perante uma obra que vale a pena ler: pelo simples prazer literário, pelo que permite pensar... pelo que permite com alguma angústia ou angustiantemente pensar.

Beijokas ;)

Afixado por: Sandra em dezembro 14, 2004 06:45 PM

Distante... as palavras que dirigi à Alex, servem tb para o comentário que deixaste. Acrescento: o que é que está exactamente na nossa natureza? E qd se verificam excessos (em várias áreas ou situações) ou qd o caos se instala, isso deve-se exactamente a quê? Existem tempos propícios para que tal aconteça? O que catalisa? Ou, por outro lado, o que pode retrair ou o que retrai?

Um grande beijinho para ti também?

Afixado por: Sandra em dezembro 14, 2004 06:49 PM

Não basta referir somente o estado de natureza do homem ou simplesmente o jusnaturalismo antropológico que o autor emprega sempre nas suas obras.É esse direito natural que transforma o homem no mundo.O homem é determinista e teleológico,isto é,para melhor se entender,tem a apetência para inclinações finalistas.Essa lei lógica é a simples filosofia formal,leis que exigem, para além do mais, uma faculdade de juízo aguçada pela experiência que, por um lado, permita discernir em que situações elas se tornam aplicáveis e, por outro, lhes faculte um acesso à vontade humana e eficácia no seu exercício prático; pois que o homem, afectado como é por tantas inclinações, é bem capaz de conceber a ideia de uma razão pura,mas não terá tãi facilmente o poder de a tornar eficaz in concreto em todo o seu comportamento.Concluíndo,como assumir o preço da vida,do caos e da desordem, se da vida se deve retirar todo e qualquer inter-esse,todo e qualquer desejo?
Será que estamos perante a criação de um abismo insuperável entre a realização da sua essência e a realidade da sua existência.Dostoiévski é pois um grande mestre desse sonho antropológico.Beijokas

Afixado por: Joao em dezembro 14, 2004 09:37 PM

se me deixasse ser "corrigido" deixaria de existir ;)

Afixado por: Ardente_Mente em dezembro 16, 2004 04:13 PM