dezembro 13, 2004

CARTA PARA DEUS

Meu bom Deus,

embora crente na infinidade do Vosso saber e poderio, e certo da Vossa ubicuidade, eu tenho de admitir que por vezes me assalta um ligeiro sentimento de dúvida no que respeita o Vosso interesse por nós e a eficiência dos vossos serviços.
Problemas ficam por resolver, orações urgentes ficam por ouvir, ódios arcaicos desencadeiam guerras, os vulcões cospem fogo, a terra treme, os automobilistas perdem a cabeça, os cirurgiões distraem-se...

Antigamente podia a gente comunicar-Vos os nossos anseios e exprimir-Vos os nossos votos através dos intermediários que mantínheis no Vaticano, em Meca, Jerusalém, na Índia, no Tibete e no resto do Oriente. E o facto dessas transacções serem umas vezes gratuítas e exigirem doutras o pagamento de emolumentos, a dádiva de oferendas ou a realização de sacrifícios, emprestava-lhes mesmo um agradável carácter de roleta, onde, como sabiamente determinastes, a excitação vem do mais do jogar e menos do resultado.

Para mal nosso, porém, duma ou doutra forma todas essas antigas delegações do Vosso poder têm sofrido com a erosão do tempo e dos costumes. Qualquer intervenção do Vaticano - desfazer os sagrados laços dum matrimónio, por exemplo - custa hoje uma fortuna. Numa peregrinação a Meca ou Jerusalém somem-se as economias de anos. Quer a gente visitar a Índia em compenetrada viagem de meditação religiosa, logo o agente de viagens nos tenta impingir também uma volta pelos bordéis de Bangkok ou Hong Kong.
Tal decadência e o abandono em que nos sentimos, atribuo-os eu à simples razão de que actualmente somos em excesso. (...)

De facto, nem mesmo de Deus se pode esperar que simultaneamente oiça os pedidos, os clamores, as aflições e os desejos secretos dos habitantes do universo, e ainda por cima se interesse pelos 6 biliões que povoam a mais pequenina das bolas planetárias.
Ciente dessas circunstâncias, e vivendo nós aqui uma época publicitária, ocorreu-me primeiro que com um anúncio eu talvez conseguisse atrair a Vossa atenção. Depois decidi que não.

Uma carta aberta, como esta, pareceu-me com mais probabilidade de surtir efeito, porque mesmo aí no céu é lógico que a secção de recortes se ache menos sobrecarregada que o serviço de escuta.
Aliás o que Vos quero pedir não é caso de vida ou de morte e nem sequer tem urgência, pois de há muito conheço afeições sólidas, de saúde vou bem e o que ganho cobre o que gasto. Sonhos de poder ou de glória não tenho e o mundo ainda me maravilha, a ponto de com sincero encanto continuo a olhar por vezes uma flor, uma criança, ou paro a admirar a beleza duma paisagem.

O meu medo é notar que com os anos me vou tornando razoável em excesso, quase doentiamente tolerante. E é disso que quero que me guardeis, Senhor. Dai-me raivas. Mantende viva em mim a capacidade de me enfurecer. Deixai que eu continue a chamar às coisas pelo seu nome, a criticar sem medo, a rir de mim próprio, e livrai-me até ao último momento das aceitações que crescem com a idade.


(J. Rentes de Carvalho- texto publicado na revista "Periférica". Nº 6, Verão 2003, pp. 14-15. Compondo esta carta optei por editar alguns trabalhos de John Vink, fotógrafo belga, retratando a situação de refugiados e deslocados em algumas partes do mundo. )

Publicado por void em dezembro 13, 2004 03:40 PM
Comentários

Querida Sandra, a verdade é que Deus não tem culpa alguma pelos erros dos Homens... todos nós temos direitos e deveres com a Mãe Natureza e com o Universo; a maioria só vê os direitos... começa a ser tarde demais para cumprirmos os deveres em atraso...
Um beijo enorme para ti minha linda :***

Afixado por: alexandra em dezembro 13, 2004 09:20 PM

Bonito texto... Dá tanto que pensar! Mt obrigado por me linkares, fiquei completamente babada! =)

Afixado por: missantipatia em dezembro 13, 2004 09:33 PM

Excelente texto. É bom parar de vez enquando e reflectir. Obrigada por este momento Sandra.
Beijinhos e boa semana ;)

Afixado por: Micas em dezembro 13, 2004 11:47 PM

Depois de ler as tuas palavras, pensei muito, refelcti sobre algo que consciente e inconscientemente encaramos todos os dias, a realidade que os nossos olhos nos mostram. Pedimos a Deus ou a uma qualquer entidade a solução e uma força chamada fé para que algo mude, para que sejamos melhores, ou por vezes mais cegos. Por vezes penso que Deus, ou o que quer que seja, tirou licença sabática com fim incerto depois de supostamente ter criado o mundo, e deixou a gerência do espaço, ao governo, ou melhor ao desgoverno irresponsável e decadente da raça dos homens...Decisão idiota...

beijo grande

Afixado por: contador de histórias em dezembro 14, 2004 12:51 AM

Bela confissão,este velamento pela práxis que me apraz registar.Tema pertinente deste texto que nos faz pensar de um outro modo como diria Paul Ricoeur.Estão aqui inculcados conceitos e problemas em que se devia oportunamente considerar e debater,é pena este espaço e tempo serem tão escassos.No entanto apontarei uma pista:será Deus um itinerário?
O nosso Deus,o tal ausente presente ou presente ausente,de punição e Todo-Poderoso dos cristãos e pelo menos dos judeus não é um Deus de intimidade e consolação e não é a energia cósmica impessoal da New Age.Deus que mudou a vida dos homens e a sua morte mudou também ele de vida desde o seu nascimento há três mil anos.Não é um Deus misericordioso nem providente,mas castigador e punidor.Hoje uma imagem vale mais do que mil palavras.A mediatização deste ícone de Cristo transformado em Deus é um deserto monoteísta em que existe uma ecologia do divino inconrestavelmente,pois o acesso à transcendência encontra-se não na imensidão das coisas materiais mas na sua miniaturização ou imoressão da sua própria imagem como ícone universal.Isto visto do alto da minha duna.O árido cura-nos dos ídolos...não quero ser um peregrino das areias.Xau Xau,beijokas!!!!!!!!!!!!!!!!!!


Afixado por: Joao em dezembro 14, 2004 04:22 AM