dezembro 10, 2004

MAR


(Fotografia de José Marafona)

Nunca conseguiu viver longe do mar.
A sua adolescência ficara cheia de dunas e de camarinhas, de falésias e águias, de tempestades, de nomes de barcos e de peixes; de aves e de luz coalhada à roda duma ilha.
Conhecera a ansiedade daqueles que, ao entardecer, olham meio cegos a vastidão incendiada do oceano - e ninguém sabe se esperam alguma coisa, alguma revelação, ou se estão ali sentados, apenas, para morrer.
Aprendera, também, que o mar, aquele mar - tarde ou cedo - só existiria dentro de si: como uma dor afiada, como um vestígio qualquer a que nos agarramos para suportar a melancólica travessia do mundo.
Depois, partiu para longe. E durante anos recordou, em sonhos, o mar avistado pela última vez ao fundo das ruas. Procurou-o sempre por onde andou, obsessivamente - mas nunca chegou a encontrá-lo. (...)
Largou a cidade e os amigos, a casa, o conforto, a noite, o trabalho e tudo o mais. Viajou em direcção ao sul, com a certeza de que jamais encontraria o mar perdido, em lugar incerto, a meio da sua vida.
Sabia agora que nenhum mar existia fora do seu corpo, e que tinha sido na perda irremediável de um mar que adquirira um outro onde, por noites de inquietante insónia, podia encontrar-se consigo mesmo e envelhecer sem sobressaltos; afastado da vã alegria dos homens e da pobreza do mundo.
Ao chegar junto do mar sentou-se no cimo da duna, como dantes, e esperou. Esperou que o mar guardado no fundo de si transbordasse, e fosse ao encontro daquele que perdera e se espraiava agora à sua frente.

Ainda hoje permanece sentado, no mesmo lugar - esperando o instante em que os dois mares se dissiparão um num outro, para sempre.
Está cansado da guerra com as palavras e do veneno dos homens, tem os olhos queimados pelo sal. Os dedos adquiriram a rugosidade da areia e dos rochedos; da sua boca solta-se um marulhar surdo, muito antigo, que os dias e a solidão arrastam devagar para a luminosa euforia das águas.


(Al Berto- O ANJO MUDO)

Publicado por void em dezembro 10, 2004 06:55 AM
Comentários

:)

Gosto de ouvir aqui as "minhas praias".

Este é o relato do "grito de ipiranga" de Al Berto.

O início das suas viagens, o "adeus e até mais" às suas praias, a Sines.

Afixado por: carlos em dezembro 10, 2004 09:44 AM

Não conhecia este blog. Gostei imenso do que vi, identificando-me com bastantes coisas. Voltarei. Vou linkar, posso?

Afixado por: Micas em dezembro 10, 2004 01:34 PM

{ ...

"se a [tua] visita [me] deixar rastos [e não comentários], teremos nós que seguir [os astros] em frente corremos" © exactu

[rio e [a]mar]
no [mar] que [rio] penetra,
rio [ele] que vem e vai, acerta
em marés e correntes de mar
[ela] reclama, amar de cama
nesta dança molhada de rimar
praia, ondas sempre a juntar
neste nunca querer separar
[ele][rio] e [ela][mar]

© cisne_feio ( heterónimo de © biquinha )

... }

Afixado por: cisne_feio em dezembro 10, 2004 03:30 PM

Carlos: gosto de trazer aqui as tuas praias, para que as possas ouvir... e gosto de te ver sorrir por isso. Al Berto é uma garantia e referência aqui no Void.

Um grande beijinho :)


Micas: fiquei contente com a tua visita e mais contente ainda com as tuas palavras. Contente fiquei tb com o teu pedido: claro que podes linkar! Nem é preciso pedir ;)

Jokas! :))


Cisne_feio: a tua poesia é linda... linda...

Beijo especial para ti... biquinha ;)

Afixado por: Sandra em dezembro 10, 2004 06:12 PM