
(Fotografia de José Marafona)
Tudo quanto de desagradável nos sucede na vida - figuras ridículas que fazemos, maus gestos que temos, lapsos em que caímos de qualquer das virtudes - deve ser considerado como meros acidentes externos, impotentes para atingir a substância da alma. Tenhamo-los como dores de dentes, ou calos, da vida, coisas que nos incomodam mas são externas ainda que nossas, ou que só têm que supor a nossa existência orgânica ou que preocupar-se o que há de vital em nós.
Quando atingimos esta atitude, que é, em outro modo, a dos místicos, estamos defendidos não só do mundo mas de nós mesmos, pois vencemos o que em nós é externo, é outrem, é o contrário de nós e por isso o nosso inimigo.
Disse Horácio, falando do varão justo, que ficaria impávido ainda que em torno dele ruísse o mundo. A imagem é absurda, justo o seu sentido. Ainda que em torno de nós rua o que fingimos que somos, porque coexistimos, devemos ficar impávidos - não porque sejamos justos, mas porque somos nós, e sermos nós é nada ter que ver com essas coisas externas que ruem, ainda que ruam sobre o que para elas somos.
A vida deve ser, para os melhores, um sonho que se recusa a confrontos.
(Bernardo Soares- O LIVRO DO DESASSOSSEGO)
Ainda pior que a agressão exterior do mundo que nos rodeia, é a agressão interna que provém de nós próprios, contra nós e mais ninguém... mas isto é preferível (magoarmo-nos a nós) do que magoar quem quer que seja; deste modo, exterior a nós próprios, só se magoará connosco quem assim o desejar ou entender, ainda que isso provoque piedade no outro e seja vista por ambos como um sinónimo de dor.
Um beijo com carinho querida :***
A teoria exposta é boa, não sei se será praticável no nosso dia a dia tão agressivo! Seria necessário um recolher dentro de nós que nem sempre é possível. Beijinhos
Afixado por: lique em dezembro 9, 2004 09:07 PMPessoalmente identifico-me muito com o conteúdo deste texto/pensamento. Cada vez mais me posiciono assim, por julgar que (me) é cada vez mais necessário. Não é de um momento para o outro que passamos a ter/conseguimos ter esta postura. É preciso algum treino e irmos sendo calejados pela Vida. Depois lá chegaremos. Julgo que, cada vez mais, é uma imprescindibilidade. Pela nossa sanidade.
Afixado por: Sandra em dezembro 9, 2004 09:57 PMDisse Horácio,mas eu sou mais por Tácito,uma desconstrução que é ao mesmo tempo uma construção,tal como a ética olha para outrem...também aqui o interno e o externo são um bicho-de-seda de si.Beijokas!!!!!!!!!!!!!!!
Afixado por: Joao em dezembro 10, 2004 02:51 AM