
(Henry Miller)
Quer o admita quer não, o artista encontra-se obcecado pela ideia de recriar o mundo, a fim de restaurar a inocência do homem. Ele sabe, além disso, que o homem só poderá recuperar a sua inocência se reconquistar a sua liberdade. Aqui, a liberdade significa a morte do autómato.
Num dos seus ensaios, D. H Lawrence afirmava que há duas grandes modalidades de vida: a religiosa e a sexual. Dizia ele que a primeira tinha precedência sobre a segunda. O sexo era a via menor, na sua opinião. Sempre pensei que havia apenas uma via, o caminho da verdade, conduzindo não à salvação, mas à luz. Por muito que as civilizações difiram umas das outras, por muito que as leis, os costumes, as crenças e os cultos do homem variem de época para época e segundo a raça e o tipo dos homens, vejo no comportamento dos grandes guias espirituais uma concordância singular, um exemplo de verdade e de inteireza que até uma criança é capaz de compreender.
Poderá parecer descabido ver o autor do Trópico de Câncer exprimir estas opiniões. Mas não quando se vê para além da superficie! Apesar de essa obra estar generosamente recheada de sexo, o que interessava ao autor não era o sexo nem a religião, mas o problema da autolibertação. Em Trópico de Capricórnio, a utilização do obsceno é mais estudada e intencional, talvez devido a uma consciência maior das exigências imperiosas da expressão. O interlúdio intitulado "A Terra da Foda" é para mim um ponto alto da fusão entre o símbolo, o mito e a metáfora. Utilizado como um dique, serve um duplo objectivo. (...) Embora enquanto escrevia, só parcialmente estivesse consciente do seu sentido, no que se refere ao propósito com que o escrevi, havia absoluta certeza. Era uma proeza equivalente a saltar para fora da própria pele. (...)
Trópico de Câncer é um testamento ensopado de sangue, que revela as devastações causadas pela minha luta no ventre da morte. O forte cheiro a sexo que o livro emana é, na realidade, o aroma do nascimento; só é desagradável ou repugnante para os que não conseguem reconhecer o seu sentido.
Trópico de Capricórnio representa a transição para uma fase mais lúcida: da consciência do eu para a consciência dos fins. (...)
Como acontece com toda a gente, sou eu o meu pior inimigo. Ao contrário do que acontece à maior parte das pessoas, porém, sei também que sou o meu próprio salvador. Sei que a liberdade significa responsabilidade. Sei como é fácil transformar os desejos em actos. Mas quando fecho os olhos, tenho que ter cuidado com a maneira como sonho e com aquilo que sonho, porque doravante só o mais ténue dos véus separa o sonho da realidade.
(Henry Miller- O MUNDO DO SEXO. Ensaio, Fevereiro-Abril, 1957)
É esse desvelamento do véu que cobre os sonhos que se tornam reais,pois toda a realidade é racional e toda a racionalidade é real.Para mim de facto existe uma síntese ou melhor uma unidade entre estas duas concepções:Realidade e racionalidade,daí se segue que sexo é verdadeiramente uma religião,pois
aqui o desejo absoluto e radical é dogmático,sem escrúpulos e máculas.Somos pulsões da libido.XAu beijooooooo!!!!!!!!!!!!!!!