
(Fotografia de José Marafona)
Então, entre os que sabem vingar-se ou, em geral, defender-se - como se passam as coisas? Esses, logo que ficam possuídos, digamos, pela ideia de vingança, só guardam dentro deles essa ideia até que tenham atingido o seu desígnio. Um senhor deste tipo investe a direito contra o alvo, como um touro bravo, de cornos baixos, e só uma parede o faz parar. (...) Pois bem, este homem espontâneo é o que eu considero o mais normal, tal como o imaginava a mãezinha dele- a natureza- quando o deitou ao mundo. E tenho ciúmes dele que me exasperam. Ele é idiota, não vou contrariar-vos neste ponto, mas quem vos garante que o homem normal não tem de ser idiota?- que sabeis vós disso? Talvez até seja elegante. Estou tanto mais convicto desta, digamos, suspeita porquanto se tomardes, por exemplo, a antítese do homem normal, ou seja, o homem de consciência alargada, que vai buscar as suas origens já não à natureza, claro, mas ao fundo de uma retorta (...), acontece ao homem da retorta achincalhar-se perante a sua antítese a ponto de, por si mesmo, se sentir, com a maior sinceridade desta vida, com toda a sua consciência alargada, um rato, e já não um homem. Um rato de consciência alargada, talvez, mas um rato, e o outro é que é o homem, e daí as consequências, e assim por diante. Principalmente, é por si mesmo, por sua própria iniciativa que ele se toma por rato; ninguém lho pede; e esse é um ponto capital. Observemos agora um rato em acção. Suponhamos, por exemplo, que também ele foi humilhado (é humilhado quase perpetuamente) e que também ele se deseja vingar. Então acumula uma raiva ainda maior que a de l'homme de la nature et de la vérité. Aquele seu feio apetitezinho, reles, de pagar da mesma moeda ao ofensor rói-o por dentro, de uma maneira talvez ainda mais torpe do que aconteceu com l'homme de la nature et de la vérité, porque l'homme de la nature et de la vérité, com a sua idiotia congénita, estima que a sua vingança mais não é do que um acto de justiça; mas o rato, mercê da sua consciência alargada, nega tal justiça. Chegamos agora ao acto enquanto tal, à vingança propriamente dita. O desgraçado rato, para além da sua baixeza original, teve tempo de se rodear do círculo formado pelas questões e pelas dúvidas, e por outras nojices que tais; a uma pergunta única acrescentou o rato tantas outras perguntas sem resposta que viu amontoar-se à sua volta numa espécie de lodaçal mortífero, um monturo fétido composto das suas dúvidas, inquietações e, para terminar, dos escarros que lhe cuspinham os espontâneos homens de acção que, rodeando-o gravemente como seus juízes ou tiranos, o cobrem de ridículo rindo a bandeiras despregadas. Claro que ao rato apenas resta esboçar um gesto de impotência com a patita, arvorar um sorrisinho de desprezo em que nem acredita e enfiar-se no buraco com o rabo entre as pernas. Aí, no fundo do seu subterrâneo malcheiroso, abjecto, o nosso ratinho humilhado, tolhido, escarnecido, logo mergulha numa raiva fria e venenosa, uma raiva- aqui é que bate o ponto!- perpétua.
(Fiódor Dostoiévski- CADERNOS DO SUBTERRÂNEO)
não gosto de vinganças ;)
Afixado por: Ardente_Mente em dezembro 8, 2004 11:29 AMEu também não. Mas colocando as coisas de outra forma: não deviam/deveriam, de todo, ser necessárias. Vou colocar a tónica do problema aqui por uma questão de responsabilização dos comportamentos. E não, não deviam ser levadas por diante. Aqui acentuo a ausência de espírito (suficientemente) tranquilo e pouco elevado (nalguns casos). Uma outra variante: não vingança, mas actuar de forma a fazer consciencializar para o mal ou injustamente praticado.
Mestre em questionar as relações do homem com a vida e até mesmo o próprio mundo,este grande mestre russo descreve a vingança sempre naquela perspectiva do "crime e castigo".É essa a questão do mal sofrido,da ferida que gera a queixa sacrificial,o mal como falta e mancha que caracterizam sem dúvida uma simbólica do mal.Beijokas!
Afixado por: Joao em dezembro 9, 2004 02:54 AM