dezembro 07, 2004

NA HORA DE PÔR A MESA


(Fotografia de Marília Campos)

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

(José Luís Peixoto- A CRIANÇA EM RUÍNAS)

Publicado por void em dezembro 7, 2004 08:31 PM
Comentários

Belo mas triste este texto. Mas de um sentimento tocante de saudade e presença dos ausentes ... Gostei imenso. Um beijo

Afixado por: Pink, the Lady em dezembro 7, 2004 10:28 PM

:) Ja li e adorei o livro. Beijokas melguinha tou com saudades do void ,tive problemas no pc mas tou de volta*********

Afixado por: Monica em dezembro 7, 2004 11:08 PM

Nostalgia onde já se sente o Natal.O Peixoto descreve na intimidade(sua)todo o vazio mais labiríntico e abismal que é possível na saudade,saudade bem portuguesa,que na linha de Eduardo Lourenço nos descobre o amâgo total do nosso ser.O ser bem português,não o nega.Fica bem kerida amiga,bom feriado,jinhos!!!!!!!!!!!!!

Afixado por: Joao em dezembro 8, 2004 04:55 AM

Sim, este livro do Peixoto passa muito por ai: apresenta-nos uma poesia de carácter saudosista em relação a um tempo (de infância) que foi, sendo que isso nos envolve no que de mais puro e inocente pode existir (pelo que foi) em nós.
É um olhar para trás sentido e muito querido pelos bons momentos proporcionados e que valem a pena reter/recuperar/projectar. Este poema é uma prova disso mesmo: apesar das ausências presentes, a mesa continua a ter lugar para 5 (no presente). E eles supostamente lá continuam.
Mas neste livro há também poesia versando um presente amorosamente vivido pelo eu e nele as palavras surgem muito belamente cruzadas num jogo presente- passado muito recente- futuro mais ou menos próximo.

Beijinho para todos :)

Afixado por: Sandra em dezembro 8, 2004 10:05 AM