dezembro 07, 2004

PALAVRAS SEM TEMPO ("ESPAÇO SUB-20")


(Fotografia de Marília Campos)

É sempre tão inconstante, a minha vontade de interferir. Por um segundo, as palavras formam-se, no segundo a seguir, diluem-se naquele pesado silêncio. Aquele silêncio que ninguém gosta de quebrar, porque a primeira nota de som vai logo embater nos grandes portões do silêncio, e mesmo o mínimo ruído parece um grito agonizante que nos acorda para o mundo. Quem ousa abalar o meu silêncio? Cobardia? talvez. Ou talvez as palavras não mereçam atenção... Mas e as palavras riscadas no papel? aqueles sarrabiscos de tinta que tentam apagar algo escondido... quem é que já não tentou ler o que estava lá escrito, por baixo daquele véu negro de algo que ficou por dizer? e paira aquela névoa densa no ar. E não digo o que penso. E algo fica por dizer. E simplesmente, não me atiro para o meio da estrada para salvar o rapaz. E a vida continua. Sigo em frente, pelos corredores do que é palpável. E a vontade volta de mudar. De salvar o mundo de tudo o que vejo nos olhos daquela gente sem sabor. O azedo de toda a situação. Interferir, deixar passar a multidão cega. E as palavras formam-se para, mais uma vez, as escrever no meu muro das lamentações. O muro interminável do não saber aproveitar cada pedrinha de areia que cai na clepsidra gigante chamada vida. Afogo-me na minha saliva.


(Sana- RASGA-ME AS PALAVRAS)


Publicado por void em dezembro 7, 2004 07:28 PM
Comentários

Intermitente,mas rasga mesmo as palavras,ou melhor,aqui as palavras voam mesmo para um género suicidário,em que se formam analogias figurativas de uma in-terrupção,um não avançar,lento mas com rítmo e esse muro acaba por ruir.Gostei muito particularmente.Beijokas!

Afixado por: Joao em dezembro 8, 2004 05:07 AM

Os textos da Sana passam muito por este género de ambiência/vivência emocional. Por isso gosto tanto deles. Por isso eles me fazem parar e pensar. São-nos muito interiores, num espelhar mais ou menos conseguido. Mas são um espelhar, sempre, pelo que possibilitam de interrogação sobre o que somos ou poderemos vir a ser inclusive em contextos que não conhecemos ou vivenciámos ainda. Previsibilidade? Não necessariamente. Antes, alargamento ou reforço das possibilidades (no que podem conter de absolutamente imprevisível).

Jokas, amigo ;)

Afixado por: Sandra em dezembro 8, 2004 10:10 AM