
(Henry Miller)
Quanto ao facto de saber se o sexual e o religioso são antagónicos e opostos, eu responderia do seguinte modo: todos os elementos ou aspectos da vida, por muito pobres, por muito duvidosos que sejam (para nós), são susceptíveis de conversão, e na verdade devem ser transpostos para outro nível, de acordo com a nossa maturidade e inteligência. O esforço visando eliminar os aspectos "repugnantes" da existência, que é a obsessão dos moralistas, não só é absurdo, como fútil. É possível ser-se bem sucedido na repressão dos pensamentos e desejos, dos impulsos e tendências feios e "pecaminosos", mas os resultados são manifestamente desastrosos. (É estreita a margem que separa um santo e um criminoso.) Viver plenamente os seus desejos e, ao fazê-lo, modificar subtilmente a natureza destes, é o objectivo de todo o indivíduo que aspira a desenvolver-se. Mas o desejo é soberano e inextirpável, mesmo quando, como dizem os budistas, se converte no seu contrário. Para alguém se poder libertar do desejo, tem de desejar fazê-lo.
Trata-se de um tema que sempre me interessou profundamente. Na minha juventude, é já depois disso, fui vítima de movimentos impulsivos, perfeitamente incontroláveis. Ultimamente, na sequência de um período prolongado de intensa actividade criadora, tem-me impressionado mais do que nunca o pântano de ideias em que se atola o modo tradicional de tratar este tema.
(Henry Miller- O MUNDO DO SEXO)
["O Mundo do Sexo", ensaio escrito originalmente entre Fevereiro-Abril de 1957. Depois deste outros excertos de si serão aqui editados.]
Publicado por void em dezembro 6, 2004 10:11 PMÉ estreita a margem que separa um santo e um criminoso... e é verdade! Serão os senhores e senhoras da religião menos criminosos do que um assassino? Não terá sido a Igreja, essa Instituição, falando agora de uma maneira geral, quem começou por envenenar (ainda mais) a humanidade com falsos moralismos, falsas beatices! Foram eles (e continuam a ser) quem nos disseram que existia um Deus vingativo, que exite Paraíso e Inferno... que o Diabo existe e que o sexo é pecado... Uma montanha de absurdos e contradições patéticas.
Acretito em Deus, sim. Não o Deus das Igrejas, o Deus das Beatas e dos Santos do Pau Oco; acredito que haja Paraíso... a Terra é-o, contudo, o Homem prefere vestir-se de Diabo e transformá-la neste Inferno!
Tirar a vida de outrem é crime... é um dos maiores crimes tão banal e vulgarizado; mas o sexo... que é uma coisa tão natural (e com ele todos os desejos e fantasias, por mais estranhas que sejam), é considerado pecado!
Quanto ao sexo, só tenho uma coisa a dizer: deste que todas as partes envolvidas estejam de acordo, desde que tudos os actos praticáveis sejam de livre vontade... nada mais a acrescentar... libertem-se à vontade... mas não se castrem só porque... assim o diz, quem melhor o faz por baixo do pano...
Querida Sandra... perdoa querida, acho que divaguei na abstracção... :* um beijinho enorme! Quanto a Henry... sabes o que penso acerca dos seus escritos... não gosto da sua pornografia por não gostar de pornografia (em alguns dos seus livros, claro), mas o que tenho de ter em conta é a sua frieza, no sentido de transpor factos reais (do dia a dia) situações, com fidelidade, para o papel. Ele não enfeitava o sexo, o acto, com palavras bonitas... escreve tal como ele é, quando, brutalmente carnal e selvagem.
;)*****
Se acho brilhante este extracto, imagino como será o livro...O que retive como o que mais me tocou foi a plavra conversão, que é "normalmente" antecedida de uma outra que lhe é fonéticamente próxima:convulsão.É preciso "sangrar" para evoluir na mente, no corpo, no espírito e no coração, sem os separar artificialmente. Nesse sentido tudo ou nada pode ser uma vivência de inteira religiosidade. O sexo, só por si não chega a essa leveza e profundidade irmanadas. O desejo, o desejo no
amor podem levar ao encontro intenso com a nudez nossa e a do outro ser, podem revelar a energia latente, imanente e transcedente do sexo. E essa sintonia é para mim uma experiência religiosa, fundada mais na sensualidade, no "erotismo" da Vida que existe em nos e nos rodeia, do que no sexo isolado desse sentir.E este sentir não se compadece de limites ao crescimento e auto-conecimento. Sejam impostos ou não por, nós própros, ou por instituições laicas ou religiosas. Estas pecam logo por cristalizarem no tempo o que nasceu e morrerá imparável:a Vida, repito. Beijos Sandra, deste estreante no teu blog.
Se acho brilhante este extracto, imagino como será o livro...O que retive como o que mais me tocou foi a plavra conversão, que é "normalmente" antecedida de uma outra que lhe é fonéticamente próxima:convulsão.É preciso "sangrar" para evoluir na mente, no corpo, no espírito e no coração, sem os separar artificialmente. Nesse sentido tudo ou nada pode ser uma vivência de inteira religiosidade. O sexo, só por si não chega a essa leveza e profundidade irmanadas. O desejo, o desejo no
amor podem levar ao encontro intenso com a nudez nossa e a do outro ser, podem revelar a energia latente, imanente e transcedente do sexo. E essa sintonia é para mim uma experiência religiosa, fundada mais na sensualidade, no "erotismo" da Vida que existe em nos e nos rodeia, do que no sexo isolado desse sentir.E este sentir não se compadece de limites ao crescimento e auto-conecimento. Sejam impostos ou não por, nós própros, ou por instituições laicas ou religiosas. Estas pecam logo por cristalizarem no tempo o que nasceu e morrerá imparável:a Vida, repito. Beijos Sandra, deste estreante no teu blog.
Henry Miller é um mestre da palavra.
Beijo
*A