
(Fotografia de José Marafona)
Agora, meus senhores, vou contar-vos, seja ou não do vosso agrado, por que não consegui tornar-me sem sequer um insecto. Solenemente vos digo: eu quis ser insecto, reiteradas vezes. E nem disso tive a honra. (...)
Quanto mais eu tomava consciência do bem, de todo esse "belo e sublime", mais me atolava no meu pântano, e mais capaz ficava de me afundar nele completamente. Mas o essencial era que isso nunca parecia fortuito, era como se devesse ser mesmo assim. Como se fosse o meu estado natural, e não doença ou enguiço meu, de tal modo que acabei por nem ter desejo de combater esse enguiço. E também ia acabando por acreditar (às tantas acreditei mesmo) que era assim, que era esse o meu estado natural. Mas, a princípio, o que eu penei nessa luta! Era incapaz de meter na cabeça que o meu estado era igual ao de toda a gente, então escondia a coisa como um segredo. Tinha vergonha (talvez continue a ter vergonha até hoje); chegava a sentir uma espécie de deleite secreto, nada normal nem decente, quando voltava a casa, ao meu buraco, por uma dessas noites de cão que temos em Petersburgo e me crescia a consciência de que tinha perpetrado nesse dia mais uma nojice e, sendo irreparável o que fizera, eu me roía, secretamente, no meu íntimo, roía-me todo, esburgava-me e rilhava-me a mm mesmo até que a aflição se me tornasse uma espécie maldita de doçura vergonhosa e depois virasse um gozo, um gozo franco e grave! Um gozo, sim, um gozo! Insisto. Falo disto porque sempre quis tirar as coisas a limpo: os outros sentiram o mesmo género de gozo? Entendamo-nos: esse gozo provém de uma consciência demasiado nítida da nossa baixeza; de nós próprios sentirmos que estamos nas últimas; e que isto é torpe, e que não há meio nenhum de nos sentirmos melhor; que não nos resta qualquer saída, que nunca na vida havemos de ser diferentes; que, mesmo tendo tempo e fé para sermos outros, nós próprios decerto não quereríamos transformar-nos; e que, se o quiséssemos, também não poderíamos fazer nada, porque talvez seja mesmo verdade que já não temos nada em que nos transformar.
(Fiódor Dostoiévski- CADERNOS DO SUBTERRÂNEO)
[Com este post inicio um conjunto de outros versando sobre a referida obra de Dostoiévski. Publicada em 1864 numa revista, apresenta-se como uma das obras de referência do autor. Divide-se em duas partes: 1ª- longo monólogo em que o personagem surge e se vai dando a conhecer com o que de pior/mais degradante pode existir no Ser Humano, 2ª- o personagem é apresentado em acção, ilustrando-se dessa forma o confronto do seu eu degradado com as realidades/situações sociais com que se vai confrontando. Atendendo, pois, ao interesse da(s) temática(s) em questão e que continuarão a suceder-se, conto com o vosso acompanhamento e colaboração. Sandra]
:)
Afixado por: Pecola em dezembro 5, 2004 12:48 PM