dezembro 04, 2004

NO ABISMO COM... (12)

Concluo, com este post, a semana dedicada a Sílvia Chueire. E concluo com a autora desdobrada de si, ou seja, escrevendo como Eugênia e escrevendo como Sílvia. Penso que é o mais indicado, hoje, pela síntese que importa fazer, não no sentido conclusivo-definitivo, antes, como síntese de um período onde o destaque contínuo foi uma evidência.
Não posso deixar de referir que esta soma de edições me soube a pouco. A muito pouco. E eventualmente terá sabido a pouco também a alguns de vós. No entanto o Tempo não acaba hoje e a Sílvia vai voltar. Esta é uma garantia que dou como grande apreciadora da poesia da(s) autora(s).
Para não vos reter mais deixo-vos com três poemas assinados por Eugênia Fortes. Apreciem:


ASAS

no olhar alado

do desejo

perdem-se

todas as palavras

e desenha-se

o gozo


PERGUNTAS

I

qual será o teu gesto,
reconstruída a ponte
entre o sonho e o real
a comunicar-me o desejo,
o teu ?
qual o dia em que tuas asas
te voarão até mim ?

II

qual será o teu gosto
quando me tocares a pele,
qual será o meu?
em que dia do calendário
tu virás,
nesse mar de ternura,
de desejo nosso?

III

qual será a tua surpresa
ao saber que era possível
a pedra mover-se do silêncio ?
no dia em que perdido o temor
reencontrares-te em mim
e eu me souber onde sempre estive:
em ti.


TOCAR-TE

Deve haver um modo de dizer-te,
um modo de tocar-te.
Sempre pensei que as palavras seriam este modo.
Ou as mãos,
ou a boca,
ou...
O corpo é óbvio.

Mas não há corpos na distância.
Há apenas memória e tempo.
Tempo e dúvidas.
Dúvidas e angústia para uns.
Falta e oceanos para outros.
Ou há corpos na distância?
Tenho mais que um corpo de palavras,
um corpo de músculos, pele,
coração e sangue a pulsar.

Um beijo talvez te tocasse,
o som, a forma,
a textura aveludada de um beijo.

Mas tudo é silêncio.
E tu tens medo.


Objectivando fazer a tal síntese que falei segue-se, agora, um poema da Sílvia, assinado por "si mesma". Ora leiam:


INTEGRALMENTE

não escondi nada em planos ou estratégias.
tudo se passa naturalmente
como o ir e vir das ondas do mar.

o que omiti teve razão precisa,
o que disse foi sempre a expressão do que penso.
nada digo se não tiver nas mãos meu coração
e nenhum receio,
a intimidade absoluta
de uma liberdade rara.

quero ser o que sou de melhor,
assim, na confiança de que meus gestos.
minhas palavras,
são para além de comunicação, aves libertas,
ou passos de uma dança
na qual o corpo está lá, inteiro.
contradições , perguntas
e afirmações.
nada do que pensamos
tem sempre lógica irretorquível.
o que me interessa é ser feliz,
fazer feliz.
é deixar-me levar pela corrente deste rio.

o afeto deve ter algum valor
que o eleve acima da pequenez cotidiana.
e é sempre ele que demarca o meu caminho.
que espero que o faça.

algum dia alguém perceberá
que há um manancial desconhecido nisso
e há de valoriza-lo
em todas as suas minúcias.
cada som. cada aroma,
cada palavra ou olhar atento,
todas as curvas ,
a dedicação que ultrapassa o medo.
o corpo a dançar a dança única,
de riso, de prazer e sem limites.

a vida vivida integralmente
acima das horas curtas de cada dia.


(Poemas editados originalmente no blog EUGENIAINTHEMEADOW. Fotografias de Urs Kahler)


E então? Pessoalmente estou absolutamente envolvida. Não há hipótese. Melhor: a Sílvia/Eugênia não dá (dão) hipótese. A Poesia surgindo, sendo percorrida por nós e entrando cada vez mais fundo... mais fundo...

Mas... e a poetisa? O que pensará ela de tudo isto? Como vê a sua escrita? Como a entende? Por que é que a desenvolve, aprofunda, faz chegar até nós?
Leiam o depoimento que se segue para, em vós, perceberem de tudo isto um pouco mais... ou um pouco melhor:


"Nunca escrevi. Sempre soube que havia algo a fazer neste sentido. Que tinha algo a dizer, mas nunca o fiz, não conseguia. Um dia, há apenas alguns anos, achei que enfim tinha conseguido expressar em palavras o que queria. Nunca satisfatoriamente, mas há muito sei que a perfeição é inalcançável, portanto cá estou, escrevendo como posso.

Cada um escreve pelas suas razões. Escrevo para dizer do meu olhar para o mundo. Escrevo porque a escrita é um modo de elaborar questões. Escrevo porque quero que leiam e quero que o poema toque a quem o lê. Escrevo porque já não sei viver sem escrever.

Aquele entre nós que tiver a chance de achar esta fissura no real (ainda assim parte dele) que é o poema, terá encontrado mais um modo de pensar a vida, os afetos, as circunstâncias. Um modo musical que busca certa plenitude nas palavras.

Mas nada disso interessa, nenhuma das definições. O que de fato interessa é que o poema alce vôo e que voemos, todos,com ele.
A poesia está no mundo e nos olhos do mundo.

Silvia Nogueira da Gama Chueire"


[Que mais te posso dizer, Sílvia? Olha, deixo-te simplesmente o meu muito obrigada pelo privilégio que me deste- e sei que continuarás a dar- para editar a tua Poesia e o reforço do expressar relativo àquela que é a beleza imensa das tuas palavras: palavras, versos, poemas... Um beijo enorme e coeso para chegar inteirinho a esse lado do oceano. Sandra]

Publicado por void em dezembro 4, 2004 12:28 PM
Comentários

É isto, Sandra. Eu disse, por ora o que tinha a dizer. Fico imensamente grata pela tua atenção e carinho com meus poemas. Pelo espaço que me ofereceste.
Beijos

Afixado por: Silvia Chueire em dezembro 5, 2004 05:53 AM

E eu tb já disse, por ora, o que tinha a dizer. No futuro direi mais. Certamente direi muito mais.
Muito obrigada. Mesmo! E tu mereces todo o espaço e destaque que eu te possa dar. Aliás, todo o que der é pouco.

:)

Afixado por: Sandra em dezembro 5, 2004 10:50 AM