
(Fotografia de José Marafona)
Sabes, eu não tenho idade. Mais uma vez te digo. Não tive infância.
Sempre acreditei que morresse com uma idade a que os outros exclamam. Oh morreu tão nova. Que importa a idade? Eu sou criança mesmo que viva até me chamarem velha. Já estou velha e fui uma velha criança. E agora eu exijo à vida. Uma vida não basta. Quero que me devolvas a minha boneca. Eu deixei de ser essa boneca brinquedo nas mãos da vida.
A mãe encontrou um cálice de sangue, já seco, debaixo da minha cama. Sim, mãe, eu gostava de ver o meu sangue a sair da carne. E quando ia tirar sangue desmaiava. Ninguém tem o direito de tirar sangue a ninguém. Apenas nós próprios temos esse direito unicamente sobre nós. Uma vida é uma vida. É nossa e de mais ninguém. Se quiser acabar com esta vida, acabo. Mas ninguém tem o direito de tirar a vida a mais ninguém. Exceptuando a sua própria vida.
Eu não pedi para nascer. E agora a morte é também um acaso? A vida é um acaso do querer e é também um caso extremamente complexo. Mas a morte é um enigma. Ninguém pede a morte mas vida, eu que nunca te pedi, hoje peço-te para morrer.
Quando se é criança não se possui idade. Quando se é criança temos o nome que mais gostamos. Quando se é criança, simplesmente, não se possui.
Cresce-se. Passa-se a ter tudo e mais alguma coisa. Passamos a ter um nome de acordo com o estatuto. Passamos a ter idades a cada ano que passa e com isso, e mais algumas coisas totalmente desnecessárias, passamos a fazer parte de grupos. O grupo dos 30, dos 40, dos 50. Vem o reumático e todas as doenças da velhice, quando afinal, sempre estivemos doentes porque assim nascemos. Nascemos, não num mundo doente mas numa sociedade doente. Uma sociedade que é como eu. Uma sociedade que nunca teve infância ou, se a teve, foi demasiado doente e cavernosa.
(Alexandra Antunes- FRÁGIL)
É a primeira vez que venho a este blog e achei fantástico. Voltarei mais vezes. Quanto ao texto, revejo-me por completo nas tuas palavras.
Afixado por: Distante em dezembro 3, 2004 08:01 AMTambém já passei pelo teu blog e gostei! Vou voltar lá mais vezes.
Quanto ao texto da Alex: muito Dostoiévski e isso agrada-me. E agrada-me pelo que tem de profundo, sentido, incómodo e tocante. De uma ou de outra forma susceptível de nos revermos nele ou de o absorvermos sem grandes ou excessivos conflitos interiores.
Beijinho para ti :)
Afixado por: Sandra em dezembro 3, 2004 09:22 AMAi mas andamos muitos profundas que bem.
Afixado por: Ofeliazinha em dezembro 3, 2004 11:53 AMOlá, Ofeliazinha... bom ver-te de volta, com marca deixada ;)
Sim, de facto, ... não posso negar que tens razão. E sabes por que é que essa profundidade se verifica? Pela grande vontade que temos de ver, ouvir, ler, conversar... tudo, mas tudo com um sentido de aproveitamento individual e conjunto muito grande. Resumindo: uma aposta em nós!
Garanto-te: tem valido muito a pena.
Este texto é mais um reflexo de tudo isso.
Beijinho :)
Afixado por: Sandra em dezembro 3, 2004 12:12 PMSei, sei o que é uma pessoa sentir-se assim...sei e sofro, porque dói. E tanto mais quanto eu sei que ninguém entende a minha dor...
Jinho; BS
Blue, o teu comentário prendeu-me. De facto, assim foi. E prendeu-me tendo em conta, da mesma forma, relações que de imediato fiz com post(s) com que me deparei no teu blog. Mas tudo é susceptível de ser agarrado, não é? Ou não, para os menos atentos...
Quanto à questão da compreensão, digo-te o seguinte, como sendo para mim muito importante (e a Alex sabe que é verdade): é absolutamente fundamental saber ouvir (ouvir só é insuficiente). Saber ouvir, fazer sínteses mentais e a partir dai ir actuando. Ir actuando na relação estabelecida com aquele que sofreu, sofre, sentiu/sente a dor. Ou, pelo menos, o incómodo do que não deveria ter sido ou não deveria ser sentido. Acima de tudo, é importante estar presente, mas estar presente não só de corpo, mas sobretudo de Alma... e com Alma.
Eu penso isto. Eu pratico isto. Porque acredito. Acredito muito!
Beijo enorme e um :)
Afixado por: Sandra em dezembro 3, 2004 07:31 PMUm texto belo e terrível. Chocante, mesmo, em termos do impacto da sua leitura. Não posso dizer que entenda totalmente pois foi um estado de espírito pelo qual nunca passei. Mas fiquei a pensar. Beijinhos
Afixado por: lique em dezembro 3, 2004 09:54 PMCurioso este "Frágil"... Também eu lancei um "Frágil" lá no Vertentes. Um beijinho Sandra e simultaneamente o registo marcado de quem visitou e, como sempre, adorou.
Afixado por: Miguel em dezembro 3, 2004 11:51 PMEatas tuas palavras são...inexplicavelmente um bálsamo para a minha alma, para o meu esírito.Alguém me ouviu, me compreendeu, me deu atenção...obrigada Sandra, e tudo de bom para ti. És uma alma Grande, como há poucas...BS
Afixado por: blueshell em dezembro 4, 2004 12:04 AMCompreendo as tuas palavras, lique... de facto não precisamos de passar directamente pelas experiências apresentadas pela Alexandra para nos situarmos e assimilarmos os seus escritos. Como tu dizes, exactamente porque nos deixam a pensar. E isso é já uma forma de não indiferença ou passagem ao lado em termos de conteúdos.
Beijinho para ti.
Afixado por: Sandra em dezembro 4, 2004 09:50 AMMiguel: um grande beijinho para ti. A tua vinda aqui ao meu canto é sempre motivo de grande contentamento e, claro, estímulo para fazer mais e melhor.
:)
Afixado por: Sandra em dezembro 4, 2004 09:52 AMBlue... deixaste-me sem jeito... uff, quem agradece as tuas palavras sou eu! Obrigada e... ainda bem que te fiz sentir melhor. Um beijo enorme... :)
Afixado por: Sandra em dezembro 4, 2004 09:54 AM