dezembro 01, 2004

NO ABISMO COM... (10)

E a descida ao abismo continua com mais dois poemas da Sílvia Chueire. Dois poemas que nos continuam a falar muito para dentro, no âmbito daquele que é o direccionar das palavras para o mais interior que há de/em nós: nós mesmos numa relação connosco, com os outros e com os outros naquilo que isso se nos reflecte enormemente.
Sigam-me, então, em mais este percurso... intimista:


INQUIETO

tenho o corpo inquieto
de uma inquietude que morde por dentro.
nem sempre faço perguntas.
não se pergunta ao corpo o que há,
sob pena de ouvir respostas.

tenho a alma colada à parede.
branca e contida alma,
quase a passar despercebida
enquanto murmura cânticos,
poemas antigos,
frases sem sentido aparente.

sou às vezes uma voz de memória
e sombras
a tecer um manto de palavras
para enganar o tempo,
sabendo que não o engano.

nada mais que um corpo inquieto
numa vida breve
que me ultrapassa,
e toma o rumo do mar.


FINGIR

Ando no olho do furacão
como se passeasse na ravina.

Finjo que não vejo
a tempestade em torno.

Finjo que não sei
da agitação em mim.


(Poemas assinados por Sílvia Chueire- EUGENIAINTHEMEADOW. Fotografias de Marília Campos)


Publicado por void em dezembro 1, 2004 09:23 AM
Comentários

O tempo tem mais tempo para nos enganar do que nós a ele... e muitas vezes não perguntamos ao corpo o que de novo há por medo... eu acredito que sim. Quando tomarmos o rumo do mar... aí... teremos todo o tempo do mundo e não haverá tempo para ter medos habitando num corpo de águas, vida e sal...
Um beijo com carinho para ti, querida Sandra. Parabéns à autora pela sua maravilhosa poesia. Estou a gostar muito desta poetisa que me deste a conhecer. ;)*****

Afixado por: alexandra em dezembro 1, 2004 04:32 PM

Julgo que há uma certa tendência em nós para enganarmos o Tempo e para nele nos querermos enganar. O Tempo a tudo isso assiste como um calmo e atento espectador. Afinal... ele é, simplesmente, nós é que o pretendemos modificar, sobretudo em termos psicológicos, mas não só.
O corpo, bem esse, pode sofrer mais ou menos. E por vezes a instabilidade. A instabilidade que pode ser muitíssima. E não há nada que se vislumbre a não ser sucessivos e constantes enganos.

Agradeço-te, Alex, as palavras que sobre a Sílvia deixaste registadas, em particular, o facto de aqui a ter trazido e dela ter feito (novo) destaque. Mais uma vez digo: vale muitíssimo a pena. Não o fazer é que seria uma falha enorme.

Beijo doce para ti :)

Afixado por: Sandra em dezembro 1, 2004 09:16 PM

Alexandre e Sandra,
As suas palavras são mais do que eu mereço, certamente que são. Mas eu fico feliz mesmo assim. : )
Beijos
PS: Sandra, as fotos estão ótimas. Fico muito agradecida.Muito.

Afixado por: Silvia Chueire em dezembro 4, 2004 02:28 AM