E a descida ao abismo continua com mais dois poemas da Sílvia Chueire. Dois poemas que nos continuam a falar muito para dentro, no âmbito daquele que é o direccionar das palavras para o mais interior que há de/em nós: nós mesmos numa relação connosco, com os outros e com os outros naquilo que isso se nos reflecte enormemente.
Sigam-me, então, em mais este percurso... intimista:
INQUIETO

tenho o corpo inquieto
de uma inquietude que morde por dentro.
nem sempre faço perguntas.
não se pergunta ao corpo o que há,
sob pena de ouvir respostas.
tenho a alma colada à parede.
branca e contida alma,
quase a passar despercebida
enquanto murmura cânticos,
poemas antigos,
frases sem sentido aparente.
sou às vezes uma voz de memória
e sombras
a tecer um manto de palavras
para enganar o tempo,
sabendo que não o engano.
nada mais que um corpo inquieto
numa vida breve
que me ultrapassa,
e toma o rumo do mar.
FINGIR

Ando no olho do furacão
como se passeasse na ravina.
Finjo que não vejo
a tempestade em torno.
Finjo que não sei
da agitação em mim.
(Poemas assinados por Sílvia Chueire- EUGENIAINTHEMEADOW. Fotografias de Marília Campos)
O tempo tem mais tempo para nos enganar do que nós a ele... e muitas vezes não perguntamos ao corpo o que de novo há por medo... eu acredito que sim. Quando tomarmos o rumo do mar... aí... teremos todo o tempo do mundo e não haverá tempo para ter medos habitando num corpo de águas, vida e sal...
Um beijo com carinho para ti, querida Sandra. Parabéns à autora pela sua maravilhosa poesia. Estou a gostar muito desta poetisa que me deste a conhecer. ;)*****
Julgo que há uma certa tendência em nós para enganarmos o Tempo e para nele nos querermos enganar. O Tempo a tudo isso assiste como um calmo e atento espectador. Afinal... ele é, simplesmente, nós é que o pretendemos modificar, sobretudo em termos psicológicos, mas não só.
O corpo, bem esse, pode sofrer mais ou menos. E por vezes a instabilidade. A instabilidade que pode ser muitíssima. E não há nada que se vislumbre a não ser sucessivos e constantes enganos.
Agradeço-te, Alex, as palavras que sobre a Sílvia deixaste registadas, em particular, o facto de aqui a ter trazido e dela ter feito (novo) destaque. Mais uma vez digo: vale muitíssimo a pena. Não o fazer é que seria uma falha enorme.
Beijo doce para ti :)
Alexandre e Sandra,
As suas palavras são mais do que eu mereço, certamente que são. Mas eu fico feliz mesmo assim. : )
Beijos
PS: Sandra, as fotos estão ótimas. Fico muito agradecida.Muito.