novembro 30, 2004

A MORTE DOS NÃO ESCOLHIDOS


(Fotografia de José Marafona)

Podias ter arranjado um viúvo menos descarrilado. Alguém que depois outros lembrassem pelo fulgor da saudade. Quando a mulher do meu amigo Alexandre morreu, ele perguntou-me em surdina, voz desmoronada: "Porque é que a morte não pergunta primeiro: posso levar esta pessoa, ou levo outra? Porque, se perguntasse, eu teria dito que me levasse a mim primeiro."
A mulher do Alexandre morreu de leucemia. Ele era médico e mentiu-lhe, confiante de que a fé nessa mentira operaria o milagre de transformar a verdade numa mentira imortal. A mulher do Alexandre não existia; ele é que era o marido dela, da pintora que criara o neo-barroco e praticava a religião do amor plural. Se o Alexandre tivesse morrido primeiro, a sua mulher tê-lo-ia chorado, pintado e esquecido. Mas o Alexandre vivia do sangue dela, desse sangue desequilibrado, frágil, excessivo. Se a morte me tivesse perguntado, juro-te que lhe teria suplicado que me levasse em vez de ti. Mas não tenho o direito de dizer isto a ninguém. A começar por ti.
Se Deus existe, é um romancista dos ranhosos, isso garanto-te eu. Desses despachados e cheios de esquemas, que atiram as personagens para o buraco que os estudos de mercado considerarem mais rentável. O que tem engordado, esse teu Deus, com a miséria que distribui pelos seus pobres personagens- é vê-los em Fátima, de rastos, a pagarem a esmola das raríssimas graças com que Sua Excelência os vai brindando, para lhes manter a fé em lume brando. (...)
Quando os teus pais morreram, disseram-te que a fé é que nos salva. E que fé é que me salva da tua morte? É vê-los, cheios de fé na via sacra das repartições, dobrados aos favores dos capatazes, ruminando no borbulhante Dia do Juízo em que o Senhor arregaçará as mangas para lhes vingar a alpaca das humilhações. Desde que os ateus Lhe decretaram a morte em altos gritos, fizeram dele um mártir- e Ele aí em cima, aqui em baixo, por todos os lados da nossa vida a rir-Se de nós, a roer-te esses ossos tão tenros, a roer-me o corpo em que tu respiras, a tapar a música terrena do teu riso com o trovão da Sua injustiça infinita.
Se ao menos eu tivesse escrito cada um dos nossos dias, anotado a sequência das nossas conversas, agarrado o Tempo que nos foi roubado. Uma narrativa, uma ilusão de ordem que estancasse a fluidez insignificante da vida. Pelo sim pelo não, vê se explicas a esse Imperialíssimo Barbudo que ninguém gostou tanto de ti como eu. A ver se ao menos o Tipo te põe a milhas dos gabirús desagradecidos a quem tu chamavas amantes, e me põe à mesa contigo, para eu te ganhar às cartas, como de costume.


(Inês Pedrosa- FAZES-ME FALTA)

Publicado por void em novembro 30, 2004 12:03 AM
Comentários

Mais uma escolha muito interessante. Um excerto de um dos livros de Inês Pedrosa de que mais gostei. Beijinhos e bom feriado.

Afixado por: lique em novembro 30, 2004 10:37 PM

Sandra:>>>Excelente escolha essa "injustiça infinita",os ateus mataram Deus,Ele foi morto pelo anti-cristo mais cristo que já conheci,Nietzche,por isso essa narrativa da Inês é poderosa,inculca indubitavelmente no tempo e no espaço um quadro ateísta metafórico,mas que me agrada particularmente,nem que seja ao falar do ausente presente ou do presente ausente...Faz falta? Xau Xau amiga,fica bem,beijinhos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Afixado por: Joao em dezembro 1, 2004 05:03 AM

Deus somos todos nós... temos esse poder, o de sermos pequenos e grandes Deuses... temos o poder do racíocinio e o poder de gerar a vida... porque fazemos o oposto? só não somos pequenos e grandes deuses... se não quisermos porque até nisso o somos... no poder da escolha.
Mais um livro a ler que por acaso já me haviam aconselhado antes. Um beijo enorme e com muito carinho.
p.s.: fazes-me falta ;)****

Afixado por: alexandra em dezembro 1, 2004 04:39 PM