
(Fotografia de Elena Vasilieva)
Segue-me. Liberta o animal que tens dentro de ti, e segue-me! Mesmo que eu fuja de terror. Mesmo que a tua imagem me deixe horrorizada. Segue-me. Solta a besta que mora no teu corpo sem morada. Porque o teu corpo é o Inferno e tu o Diabo em pessoa; e eu não encontro a rua que dê para esse Largo; eu não encontro o caminho que me leve à tua porta. Segue-me! Imploro-te. Porque estou tão perdida, tão perdida que me afogo em cada objecto que toco; porque estou tão perdida que os sonhos maus submergem de cada chão por onde caminho. Segue-me. Não consigo parar de correr; não consigo parar de temer. De temer o passado que corre à minha frente; de temer o presente que me empurra para sítio nenhum; e eu corro, corro muito. Corro como se os meus pés se gastassem à medida que avanço; corro muito, cada vez mais rápido, cada vez mais depressa e sinto que o chão me devora as pernas sem pés se não conseguir ser mais veloz. E eu corro e grito. Corro e grito sem parar. Segue-me! Segue-me! Segue-me!, e o chão devora-me as pernas; e os sonhos maus submergem do chão devorando os meus sonhos que são mais rápidos que eu.
Cada vez mais alto. Tu. Cada vez mais longe. Nós. E a corrida que não cessa. E o desespero que se esvai demolindo edifícios que arranham o céu. E eu a correr desesperada. E o teu monstro adormecido e incapaz transformando o nosso amor num amor doente e em estado de coma. E eu igualmente doente e louca ligada a essa mesma máquina que faz o nosso amor respirar. E corro como se a energia gasta nesta correria desse oxigénio para o nosso amor respirar. O nosso amor em estado de coma que apenas existe; que se limita a respirar. E algo dentro de mim me diz que não devemos desistir dos nossos sonhos. E eu sigo o impulso do meu coração, e faço gestos que te transmitam a minha sequência, pois já não tenho voz.
A minha cabeça ficou para trás; as minhas pernas ficaram para trás e os pés foram engolidos pelo último pesadelo. E eu sou apenas um corpo mutilado que se agita em gestos e em gritos que já não se ouvem sob o chão que o nosso amor me roubou porque tu não me seguiste.
(Alexandra Antunes- FRÁGIL)
E o tríptico é concluído...
muito bom...
esse blog sempre me surpreende.
Inflamed... volta sempre :)
Uma coisa te digo: os textos da Alex muito contribuem para provocar esse estado de surpresa. Este é apenas um exemplo, mas há mais. E aqui no Void isso já foi demonstrado. Vai recuando...
Beijokinha :)
Afixado por: Sandra em novembro 26, 2004 07:06 AMfascinou me*
Afixado por: Ana em novembro 26, 2004 11:46 AMTambém não é difícil, Anokas, vindo de quem vem... Sim, estamos perante mais um texto muito forte.
Beijufas ;)
Afixado por: Sandra em novembro 26, 2004 12:52 PMIntensamente....devorador. devoradoramente...intenso.Força, Alex.
Afixado por: Emanuela em novembro 26, 2004 03:06 PMSobre a Alex nunca está tudo dito.Depois dessa forte e telúrgica pulsão,essa tríade,chegou à síntese...depois da ideia em si, saíndo de si e voltando a si,o seu espírito absoluto,confesso é poderoso.Xau bom fim de semana e boa crítica literária...Jinhos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Afixado por: Joao em novembro 27, 2004 05:48 AMEmanuela, não tenhas dúvidas que dizes muito sobre este texto. Mais: sobre o que ele tb espelha.
Jokas ;)
João:
És um querido filósofo que prezo muito aq aqui neste meu canto. Sem dúvida, uma dialéctica possível de considerar, mas tb uma dialéctica em que cada síntese volta a ser a tese de um novo processo. Afinal é assim mesmo não é?
Quanto à crítica literária, obrigada. Eheh..
Bom fim de semana para ti também.
Jokas :)
Afixado por: Sandra em novembro 27, 2004 09:34 AMTexto escelente! "E algo dentro de mim me diz que não devemos desistir dos nossos sonhos. E eu sigo o impulso do meu coração" ... Lindo, apesar de triste, este texto. Um beijo e bom fim de semana
Afixado por: Pink, the Lady em novembro 27, 2004 04:31 PMNão vão certamente achar que não sei escrever ... mas aqui fica a correcção: onde se lê "escelente", deve ler-se "excelente". :-)
Afixado por: Pink, the Lady em novembro 27, 2004 04:36 PMPeço desculpa a todos por só retribuir agora todas as palavras que aqui me deixaram, mas tive um problema (técnico, suponho) que me impedia de comentar o Void, pelo que, apesar de tarde, só me resta agradecer-vos do fundo do meu coração a vossa presença. São muito importantes para mim; e a ti, Sandra, por dares a conhecer mais um texto meu que saíu directamente nos pulsos para o "papel"; a imagem... glup! linda, linda, linda...!!! Um beijo grande, grande a todos vós!
Afixado por: alexandra em novembro 28, 2004 04:42 PM