
(Fotografia de Christian Coigny)
Foi descendo as escadas de mármore sem olhar para os degraus. Tinha pressa. Transpirava por todos os poros, roia as unhas, chorava baixinho. Estava correndo tanto que sentiu uma lágrima grossa voar de seu olho e molhar seu cabelo. Olhou para trás e sentiu alívio. Ninguém viu o que tinha acontecido, ninguém poderia ter visto, não, por favor. Porque logo com ela, meu deus, justo com ela? Não foi de propósito, não foi, ela repetia, baixinho, num gemido. Foi começando a cansar, foi diminuindo o passo. Tinha alcançado a saída do prédio e a porta art nouveau cheia de arabescos e relevos de flores. Parou e encostou-se numa coluna. Cobriu o rosto com as mãos. Lembrou dele, ainda há poucos minutos, sorrindo pra ela, no salão principal. Lembrou de suas mãos estendidas e de seu corpo ali, se oferecendo. Não, jamais. Nem em sonho. Ela nunca poderia adivinhar. Como ela poderia saber que ele se desmancharia em pleno ar, quebraria em mil pedaços, se desintegraria? Porque nunca ninguém lhe falou sobre isso? Ela não sabia. Ela não sabia que tem gente que é só obra de arte. Tem gente em que é proibido tocar.
(Eliana Pougy- Conto breve editado na revista "Periférica". Nº 11, Outono 2004, p. 63)
Profundamente... tocante. Sobretudo a última parte... tem gente que é só obra de arte. Tem gente em que é proibido tocar... arrepiei-me!!! E lembrei-me também de um provérbio qualquer que li algures, que nos diz que há sítios na natureza, locais sagrados, onde o homem jamais deveria tocar... isto dá que pensar...
Um beijo dos nossos, minha querida e parabéns à autora do texto pela mensagem que nele conseguiu transmitir em tão poucas palavras; mais uma prova que quantidade não é sinónimo de qualidade. :**** ;)