
(Fotografia de José Marafona)
Ontem à noite suplantou as balas com que o metralharam e fugiu da polícia entre a multidão.
Escondeu-se na copa de uma árvore, partiu-se o ramo e acabou espetado numa cerca de ferro. Soltou-se do ferro, adormeceu numa lixeira e foi aprisionado por uma pá mecânica. A pá libertou-o, caiu sobre um tapete rolante e foi esmagado por toneladas de lixo. O tapete pô-lo diante de um forno, ele não quis entrar e começou a retroceder.
Deixou o tapete e passou à pá, deixou a pá e foi para a lixeira, deixou a lixeira e espetou-se na cerca, deixou a cerca e escondeu-se na árvore, deixou a árvore e procurou a polícia.
Ontem à noite mostrou o peito às balas com que o metralharam e caiu como qualquer um quando o enchem de chumbo: completamente morto.
(Raúl Brasca- Microconto editado na revista "Periférica". Nº 11. Outono 2004, p. 68)
Por vezes é preferível oferecer o corpo ao chumbo de fogo e terminar com o sofrimento, do que adiar esse sofrimento e sofrer por antecipação... triste mas bonito na sua mensagem importante... Um beijo sentido... :***
Afixado por: alexandra em novembro 28, 2004 04:51 PM