
(Fotografia de Elena Vasilieva)
Eu amo multidões... um deserto
Ah! Se amo! Que bom amar!
Eu amo de longe, de perto
Amo parada, amo sem parar!
Amo os prados, as montanhas
Os vales, os cumes, as muralhas
Golfinhos, peixes, até piranhas
E do teu sótão, também amo todas as tralhas.
Amo as portas, gavetas, armários
As janelas, as varandas, os telhados
Amo gaivotas, gaviões e canários
Amo por aqui, por ali, por todos os lados.
Amo rios, riachos, os sete mares!
Amo pontes, escadas, elevadores
Números impares, números pares
Amo o Arco-Íris, todas as cores!
Eu amo a poesia, a prosa, as palavras infinitas
Livros, pergaminhos e papéis
Eu amo o silêncio, as palavras nunca ditas
Amo a arte, as telas e os pincéis.
A paz, a beleza e a alegria
A luz trémula, reluzente; os intermédios
O carinho, a ternura, a avidez e a harmonia
Amo a doença, a cura, os males e os remédios.
A verdade e a mentira
A bondade e a malvadez
Amo este amor que já ninguém me tira
Amo-te agora, agora e para sempre outra vez.
Amo a terra e a água
A luz e a escuridão
Amo a felicidade e a já tão velha mágoa
Cabem cá todos no meu coração.
Ah! Amo este cansaço
Que não me cansa de tanto amar
Amo um beijo teu, um simples abraço
Amo-te sem fronteiras, sem barreiras, sem nada esperar.
Eu amo a lua, o céu estrelado
Os dias, as noites, os crepúsculos e as auroras
Amo o mistério do bosque assombrado
Amo todos os frutos, morangos e amoras.
As flores, os jardins e as florestas
Os duendes, as fadas e as feiticeiras
Neste meu coração sem arestas
Eu amo de mil maneiras.
O fogo, o vento, o ar
A força e a fraqueza
Ah! Este amor que preciso respirar!
Este amor tão nobre, filho do certo e da incerteza.
Eu amo as linhas, as rectas, as metas
Os anjos e arcanjos; todos os seres celestiais
Eu amo o Cupido e as setas
Amo tempestades e vendavais.
Eu amo vozes, sons e assobios
Todos os poetas e compositores
Amo melodias, barquinhos e navios
Sinfonias, todos os artistas e pintores.
Os sorrisos contagiantes
As almas voadoras
Os anões e os gigantes
Homens, mulheres e crianças sonhadoras.
Amo salas vazias, salas cheias
Amo teatros e espectadores
Amo pedras, rochas, castelos e ameias
Amo o drama, a comédia e os actores.
Amo todos os pecados
Vulgares ou originais
Os paraísos encerrados
Amo as serpentes e todos os animais.
A maçã e a semente
A dentada e o caroço
Amo o agora e o antigamente
A tua queda no meu coração, infinito poço!
Amo as poças, os charcos e as rãs
Amo a natureza e este mundo destruído
Amo-te adormecido, todas as manhãs
Amo-te, ó mundo desaparecido!
Eu amo este e aquela
Amo-te a ti e a ele também
Eu amo-me, amo-a a ela
Amo tudo, todos; amo nada e ninguém.
Amo-te hoje e amanhã
Amo-te todos os dias, anos e meses
Amo-te de noite e de manhã
Amo-te sempre, todas as vezes.
Eu amo sem saber porquê
Eu amo este instinto de amar
Eu amo o que o olhar vê e não vê
Amo e amo por amar.
(Alexandra Antunes- FRÁGIL.)
[Deixo-vos este poema que mostra, inequivocamente, a personalidade complexa da autora. Mas que mostra também o quanto tal complexidade se concretiza tão bem naquela que é a sua grande paixão: a escrita. Alexandra: amar por amar?! Diz-me (nos)... Poema que me foi muito bem declamado pela propria, hoje, às 02.30 da madrugada. E o impacto, em mim, foi grande... Sandra]
Com os seus paradoxos e contradições, este poema é belo. Tanto amor para dar e sentir ... Um beijo
Afixado por: Pink, the Lady em novembro 21, 2004 08:28 PMMas é de tanta contradição e de tanto paradoxo que o encanto emerge. E dai, por isso ou em sequência, o muito amor para dar e sentir.
Beijinho para ti, Pink :)
Afixado por: Sandra em novembro 21, 2004 08:34 PMHino à vida.
Fiqei assim sem palavras... acho que não te esqueceste de nada e de ninguém. Depois de ler este amor é dificil arranjar adjectivos para o caracterizar... lindo, fabuloso, fantástico, será pouco. É um poema de tudo, poema ardente, poema amoroso ;)
Beijos Alexandra e tu continua a escrever poesia. Tens uma grande força e um grande espirito para a escrita e esta poesia... fiquei mesmo assim :)))
Afixado por: Carlos em novembro 21, 2004 09:57 PMAntes de mais, vou responder à tua pergunta, Sandra querida. Amar por amar, é pois, dito em poucas palavras, que o amor é algo tão simples quanto isso. Ama-se e pronto. Não há explicação. Muitas vezes o amor causa-nos (para além de tantos outros sentimentos/sensações anteriores e posteriores) inseguranças e duvidas, quando na verdade, nada nos impede, seja para além do bem ou do mal, continuar esse amor. Portanto, a intenção deste poema foi tentar dar a ideia que independentemente das coisas boas, menos boas ou realmente más, o amor mantém-se... indiferente.
Eu costumo perguntar: amas-me? porquê?; e mais à frente, afirmo: amo-te porque amo tudo em ti, o bem e o mal. E não é isso o amor? é um todo... que não se explica... por mais perguntas que surjam pelo caminho.
Pink, the Lady: :) são as tais contradições que muitas vezes nascem da duvida... da insegurança. Muito obrigado pelas palavras que me deixas; um beijo para ti também :* :)
Carlos: isso é um elogio grandioso vindo de uma mente brilhantemente poética como a tua!!! Eu é que fiquei assim :))))) isto porque tu és poeta, e quem melhor que um poeta para fazer tal critica tão construtiva? Só me resta agradecer-te do fundo do meu coração os elogios por ti cedidos. Um beijo com amizade :* :)
Sandra: a ti... já nem sei que mais te dizer... que tal mais uma declamação pela noite dentro? :)
A imagem está... soberba!!! Adorei, adorei, adorei!!! Um beijão do tamanho da Lua!!! :pppp
Carlos...
Li com atenção o comentário que deixaste e uma coisa te digo: a poesia da Alex é-nos indispensável. E é-nos indispensável porque no muito de autobiográfico que tem, todo o turbilhão e intensidade que a caracteriza tb nos toca muito profundamente. Mais: toca-nos porque nos provoca! Toca-nos, porque nos obriga a olhar-nos, a remexer-nos e a desenterrar em nós muito que temos estabilizado ou deixado lá porque sim. A poesia da Alexandra leva a que acordemos de alguma letargia em que vivemos. Mas a poesia da Alexandra chega-nos também amorosamente. Também nos acalma, também nos embala, também nos envolve. Eu falo por mim: na poesia da Alexandra (e na prosa tb) perco-me, esqueço o tempo, o espaço deixa de existir e mergulho numa realidade que é muito minha, num prolongamento que vem dela. E ela, a Alexandra, sabe disto. Agora já sabe e arrisco-me mesmo a dizer que disso não tem dúvidas.
:)***
Afixado por: Sandra em novembro 21, 2004 10:31 PMAlex:
A explicação que me (nos) deste só veio reforçar em mim uma ideia: que és até hoje a pessoa com quem contacto directamente que tem a ideia mais profunda do Amor. Fizeste-me sentir isso imensamente: sobretudo ontem. Não só, mas sobretudo ontem porque estive contigo e porque vi como te expressas-te. E sabes uma coisa? fizeste-me sentir precisamente pelas contradições que estão inerentes ao que afirmas e à forma como vives as coisas. Tu abraças tudo o que foste e o que és de uma forma espantosa, incrivelmente alucinante e embriagante... Sendo que a tua definição do Amor decorre de tudo isto, só posso pedir-te para não mudares nunca. Eu gosto de ti assim.
Beijo nos nossos :)
Afixado por: Sandra em novembro 21, 2004 10:38 PMTentar explicar o amor levaria inevitavelmente a esta vertigem de contradições. Beijos ás duas e boa semana.
Afixado por: Monalisa em novembro 22, 2004 12:16 AMMonalisa:
Este poema é um espelho ou o reflexo de alguém. E esse alguém é vertigem, por excelência. Logo, amar é-o também assim, naquela que é uma calma ou maior tranquilidade que pode ser considerada. O Amor tem raízes no que há de melhor e o melhor é a Pessoa e tudo o que tem dentro dela. E vistas as coisas desta forma, as contradições esbatem-se bastante: questão de essência; questão de Causa Primeira.
Beijo para ti :)
Afixado por: Sandra em novembro 22, 2004 07:01 AMMinha kerida esta lindo,adorei. O amor nao se define sente-se e pronto. Amas a vida é bom ver escrever te coisas assim alegres :-)
Um beijo muito muito grande da mana mais nova******
Sandrinha beijo enorme tb para ti*****
Umas palavras para a criadora deste blog:
Sandra, estás mesmo de parabéns pela excelente qualidade estética do teu blog. Mas porque a qualidadae estética não chega para chegar mais (pro)fundo,aprecio bastante não só a diversidade dos teus gostos (em cinema, literatura, fotografia) como também a forma como os partilhas e comentas.Intensidade e leveza, eloquência e elegância, são difíceis de conjugar. Quem sou eu para te dizer que estás num caminho, não bom mas, óptimo.Bem digo-na mesma...:-) João
ao
Alexandra, este texto de vívida grandiosidade lembra-me o "Canto de mim mesmo" de Walt Whitman.
Nada fica por amar neste seu louvor, neste hino, também a si própria como ser amante...
João:
Agradeço muitíssimo as tuas palavras. Desejo que não tenha sido a 1ª nem a última vez que aqui vens. Gostaria de partilhar gostos, interesses e opiniões contigo (mais vezes). É por o meu blog ser isso tudo que tu dizes (e não vou ser modesta) que a Alexandra tem direito a um lugar de destaque. Um destaque sempre mas sempre em renovação.
Beijinho para ti :)
Afixado por: Sandra em novembro 29, 2004 01:38 PM