Tenho grandes estagnações. Não é que, como toda a gente, esteja dias sobre dias para responder num postal à carta urgente que me escreveram. Não é que, como ninguém, adie indefinidamente o fácil que me é útil, ou o útil que me é agradável. Há mais subtileza na minha desinteligência comigo. Estagno na mesma alma. Dá-se em mim uma suspensão da vontade, da emoção, do pensamento, e esta suspensão dura magnos dias; só a vida vegetativa da alma- a palavra, o gesto, o hábito- me exprimem eu para os outros, e através deles, para mim.

Nesses períodos de sombra, sou incapaz de pensar, de sentir, de querer. Não sei escrever mais que algarismos ou riscos. Não sinto, e a morte de quem amasse far-me-ia a impressão de ter sido realizada numa língua estrangeira. Não posso; é como se dormisse e os meus gestos, as minhas palavras, os meus actos certos, não fossem mais que uma respiração periférica, instinto rítmico de um organismo qualquer.
Assim se passam dias sobre dias, nem sei dizer quanto da minha vida, se somasse, se não haveria passado assim. Às vezes ocorre-me que, quando dispo esta paragem de mim, talvez não esteja na nudez que suponho, e haja ainda vestes impalpáveis a cobrir a eterna ausência da minha alma verdadeira; ocorre-me que pensar, sentir, querer também podem ser estagnações, perante um mais íntimo pensar, um sentir mais eu, uma vontade perdida algures no labirinto do que realmente sou.
Seja como for deixo que seja. E ao deus, ou aos deuses, que haja, largo da mão o que sou, conforme a sorte manda e o acaso faz, fiel a um compromisso esquecido.
(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO. Fotografia de José Marafona)
Obrigado pelas visitas e pelo apoio neste momento complicado que atravesso.
Um abração do
Zecatelhado
Vida vegetativa, da alma.. gostei!
Afixado por: Shadow dweller em novembro 21, 2004 06:11 PMZecatelhado:
Desejo, sinceramente, que esse momento seja rapidamente ultrapassado.
Um grande beijinho para ti.
Shadow:
Vida vegetativa de nós, algumas (ou muitas) vezes disfarçada pelo que temos que parecer. Vida vegetativa que nos anula ou vai anulando, adiando aquela que poderia ser a concretização da nossa plenitude. Intervalos ou suspensões de nós que nos atrasam, nos adiam, nos desgastam no que não chegamos a ser. Suspensões que nos diminuem. Mas também realidade que pode ser agarrada para um impulso que se consciencializa urgente e decisivo para a sobrevivência de nós.
Beijinho
Afixado por: Sandra em novembro 21, 2004 08:27 PM