
(Fotografia de José Marafona)
E o mundo acabou. Inexplicavelmente, ou sem uma explicação que possa ser dita e entendida. O mundo acabou, como num instante em que se fechassem os olhos e não se visse sequer o que se vê com os olhos fechados. (...). O mundo acabou e nem o tempo prosseguiu. Os minutos não passavam porque não existiam, como não existiam os momentos ou os olhares. O infinito era o infinito de não ser nem infinito, nem nada. A morte não existia no meio de todas as coisas mortas. Não existiam os cadáveres. Tinha morrido a memória da morte. (...). O mundo acabou. E não ficou nada. Nem as certezas. Nem as sombras. Nem as cinzas. Nem os gestos. Nem as palavras. Nem o amor. Nem o lume. Nem o céu. Nem os caminhos. Nem o passado. Nem as ideias. Nem o fumo. O mundo acabou. E não ficou nada. Nenhum sorriso. Nenhum pensamento. Nenhuma esperança. Nenhum consolo. Nenhum olhar.
(José Luís Peixoto- NENHUM OLHAR)
[Post em reposição]
O que fazemos nós aqui num mundo inexistente?
Afixado por: em novembro 16, 2004 02:21 PMSo a pouco tempo conhecio o trabalho de Jose Luis Peixoto mas gostei imenso . Excelente escolha tanto de autor como no excerto,mais uma vez estas de parabens Melguinha.Beijokas****
Afixado por: Monica em novembro 16, 2004 06:47 PMO que fazemos? Vamos inexistindo no que somos de nós. Será possível? Sim, se o tal mundo tb desabar. Ou então nem sequer somos num mundo que não é.
Nenhum nada...
Monikita:
Já falámos sobre o Peixoto. Muito bem, vejo que o "Morreste-me" agradou-te. Eu não te disse? Recomendo-te como leitura seguinte, precisamente este romance: "Nenhum olhar". É simplesmente fantástico.
Beijokinha...
Afixado por: Sandra em novembro 16, 2004 07:11 PMÓptimo excerto de um autor que aprecio muitíssimo! Uma bela escolha, Sandra. beijinhos
Afixado por: lique em novembro 16, 2004 11:32 PM...e enquanto o mundo acaba ficamos a ler o que dele resta e sobra por esse olhar a viver a força de cada palavra.
Portentoso Peixoto ;)
Até amanhã
* * *
Um excerto que me derreou por completo no fim da leitura do romance. Apocalíptico!
Beijos...
:)
Afixado por: Sandra em novembro 17, 2004 06:51 AMSem dúvida um dos melhores escritores portugues contemporâneo. Recomendo vivamente a lerem "a criança em ruínas".
Afixado por: Lakriima em fevereiro 4, 2005 10:41 PM