novembro 15, 2004

NO ABISMO COM... (5)

Retomo esta semana a rúbrica "No Abismo com...", na qual se dá destaque aos trabalhos de colaboradores e também amigos deste blog. Hoje trago-vos um amigo que consolidará a sua colaboração com a apresentação de poemas que hoje se inicia. Este amigo é o Carlos Branco do blog "Manifesto" que vejo, inequivocamente, como um poeta. O Carlos adora Poesia. O Carlos pensa Poesia. O Carlos vive em Poesia, ou melhor, vive poeticamente. O seu gosto por este género de escrita, pelo que ela lhe permite e a(s) realidade(s) que a si levam surgem transbordantemente em si, o que se pode comprovar pelo seguinte depoimento por si prestado:

Momentos” de-vida-mente identificados. A criação.
Os momentos surgem por instantes de forma instintos que nos pedem imediatamente para serem escritos. Os momentos de-vida-mente identificados não têm hora marcada e nem lugar próprio. A primeira coisa que marca o momento é o aparecimento do verso na mente, o primeiro de um conjunto recheado de improviso mental com ou sem significado aparente. É como uma luz que se ilumina ou uma lufada de ar fresco que reanima a vida. A vida, que inspira, porque é tudo. E é no contacto com todas as formas que fazem parte da vida, que podem ir de pedras inamovíveis a seres profundamente irrequietos, que se encontram todas as frases e versos que surgem de repente e que logo ali urgem em ser escritos para que não se percam no labirinto de pensamentos e momentos únicos que tomam conta do cérebro. E quando surge esse momento mágico, repleto de vida, sensações e sensibilidade, que é o momento da criação, nada pode impedir de o registarmos, porque o momento da criação não tem mesmo lugar nem hora marcada. Acontece, mas também se estimula.
O facto da poesia ser o registo que pode reflectir melhor a profundidade e sensibilidade do ser humano, não impede que quem a faz não tenha uma atitude racional e pensada sobre o trabalho. Deve ter sempre. Cada vez mais a poesia é um exercício onde ponho em prática toda a necessidade de exteriorização dos meus sentimentos e sensações, pensamentos vontades, vontades momentos, calma fúria, silêncios e gritos. E assim, chego a vós através da “sensacionalidade” e “sentimentalidade” que exprimo, inata em mim, nascida de um trabalho exercido com toda a capacidade de raciocínio e todos os sentimentos e instintos, e claro, toda a vontade de amar, através dos desejos profundos, de situações reais ou fictícias, mas sempre verdadeiras porque me pertencem como todos estes pensamentos em forma de poemas que decido partilhar."


Iniciando a concretização do que acabou de ser explicitado, deixo-vos com um poema editado numa publicação de uma associação a que o Carlos pertence, poema este que conheci/tomei contacto, ontem, na sequência de um encontro pessoal com o autor. Atentem:


ESTE DIA

E este dia de tanto azul e
tanta beleza de infinito
de tanto grito a mar sobre um
céu lindo e limpo
soprando a breve brisa num
aconchego
por onde me aproximo e me
esfrego.
E este dia de tanto azul que é
o traço negro por fora rasgado
faz-me querer beber tudo num
só trago e escrever sobre algo
algo que se brilhe como esta
luz por cima luzidia
que se ilumina e que me
inspira o dia,
E tanto azul e tanta cor junta
nos horizontes para lá do
olhar e da luta
que preciso tanto como tudo
tocando no verso o mundo,
E tanto azul passando sobre o
tempo
se abre agora na noite escura
o sopro de um vento
mergulhando num vasto
negrume de brilho
que me cobre como um manto
e me acende ao rastilho.
E este dia de tanto azul que
parecia esquecido
olhou-me os olhos aqui
sentado
gritando escondido abrindo o
caminho descoberto
que abraço, que quero e que
descrevo num só excerto.
Este dia


O Carlos como homem das letras que é, inclusive a nível de percurso universitário, tem uma grande preocupação em analisar, perceber e explicar o que no mundo dos criadores vai acontecendo. O depoimento que se segue é, pois, prova disso mesmo. Ora vejam:

Pensamentos” de-vida-mente identificados. Os criadores.
Umas palavras para quem cria. O importante da criação é a expressão individual, que pode ou não reflectir o colectivo. Sendo a poesia e a escrita a expressão máxima do meu ser, depressa chego à conclusão que não conseguiria viver exprimindo-me de outra forma, pois o que sinto é vida e a forma como exprimo o sentimento é viver. E assim, o mais importante é exprimir o que se tem cá dentro, independentemente da forma como se o faz, e se possível criando e recriando, onde entra nesse processo toda a capacidade consciente de raciocínio que já falei e todos os sentimentos que residem cá dentro. Só assim, exprimindo-nos, seja de que forma for, podemo-nos impor porque este é o sinal de que verdadeiramente existimos e pensamos sobre existir, escolhendo ou não fazer parte do conjunto, sociedade. No entanto, quem cria, deve preservar toda a capacidade de auto-critica e análise do seu próprio trabalho para também analisar melhor os trabalhos dos outros, e face a todas as pessoas, quer criem ou não, tem de haver sempre uma posição de humildade para não cairmos no erro de pensarmo-nos superiores a alguém. Aqui, ou se gosta ou não se gosta, embora, como é obvio, o direito de se criticar é completamente legitimo, mas acima de tudo é necessário respeitar o trabalho, o esforço e a dedicação que o criador imprime à sua criação, e sempre, sempre presente o apelo para que se continue o trabalho acreditando e dando valor ao que temos dentro. Independentemente das barreiras que se nos colocam à frente a palavra desistir existe para não existir e por muito que reprimam nosso esforço, nossa criação e forma de expressão, nada nos impedirá de continuarmos nossas criações, estimulando sentimentos e pensamentos para que nunca deixemos de ser livres e para que nunca deixemos de sonhar.
Uma palavra também para quem incentiva, para quem dá a oportunidade e a visibilidade e para quem acredita nos nossos trabalhos e os expõe. Agradecimentos, saudações, beijos e abraços, e continuem sempre a sentir-nos, porque nosso universo da criação também engloba os que recebem, lêem e passam a mensagem. Vocês também fazem parte deste universo de criação que dá vida e colorido ao mundo.
À Sandra um beijo do fundo do meu coração."


Não podendo eu, desde já, deixar de agradecer as palavras que me são dirigidas, dou seguimento a mais um poema do autor. É ele:


JUNTO COM PEDAÇOS

Junto os pedaços e divago mergulho nos braços da distância
junto dos pedaços, bocados de corpo e riso de peito aberto
junto em pedaços uma bola colorida entre as mãos de uma criança
A nossa, que se escreve e que eu aperto com passos apressados de infância

Toquei na sombra em branco da minha pele
Movimentei objectos sem ordem aparente e perdi-lhes no tacto
na delícia que deve ser tocá-los ao de leve e de repente,
Procuro gente, sem fato,
gente de facto

E toquei na sombra e gritei o sol baixinho no teu quarto
Agitei as águas reladas na hora e percorri tudo sem maneira
Vasculhando cada letra perdida por brincadeira sentado na cadeira
E agora entro ai dentro, provo o leite e me deito no lento gosto
sem saída

E junto os pedaços dos pedaços em pedaços da sombra inquieta parada vadia
Dos nossos para os nossos em nossos desejos de letra e vida que não para
Como ossos dentro de fossas e louças baratas
sinceras
Fotografo o espaço e guardo os restos das lembranças
raras


[Fotografias de José Marafona e Marília Campos, respectivamente.]


Esperando, sinceramente, que este 1º post vos tenha motivado para o acompanhamento desta rúbrica ao longo da semana, deixo registado que mais poemas do Carlos serão editados na Quarta-feira. Conto convosco! E conto convosco de forma tão participada quanto possível.
Para ti, Carlos, aquele abraço...

Publicado por void em novembro 15, 2004 06:45 AM
Comentários

Belo trabalho. Refiro-me a vós (void) e ao autor que fiquei agora e partindo daqui.

Há nele de facto textos e poemas muito muito bonitos.
Obrigado a ambos.

Afixado por: João Norte em novembro 15, 2004 08:44 AM

João:

Fico muito feliz por te ter de volta aos comentários aqui no Void. Agradeço as tuas palavras e quanto ao Carlos, sem dúvida que ele tem trabalhos muito bons. Merece, sem dúvida, esta semana de destaque.

:)***

Afixado por: Sandra em novembro 15, 2004 09:31 AM

Excelente! Este blog promete!

Um beijo

Afixado por: luisa em novembro 15, 2004 03:20 PM

Obrigada, Luísa! Uma coisa é certa: ao longo desta semana (até Sábado), o Carlos contribuirá bastante para isso.

Beijinho :)

Afixado por: Sandra em novembro 15, 2004 03:46 PM

Quero dizer mais uma vez, a ti, Carlos, que gosto bastante dessa tua poesia, a que respiras e a que também fazes respirar ao ler-te.
A relação existente entre criador/criação também será como que, uma respiração mútua ou, um é o ar e o outro os pulmões. Um, pode existir sem o outro mas este último não consegue sobreviver sem ar. A arte é inevitável aos artistas por isso... força! Muita força para continuares a oferecer-nos a tua arte que não nos deixa indiferentes!
Um beijinho muito grande e tudo de bom!!!

Sandra: ;))) adorei as escolhas que fizeste. Em relação às referências que dás do Carlos... simplesmente soberbas! Ele escreve mesmo muito bem e eu concordo com os elogios por ti concedidos por ti.
As imagens... sempre de acordo amiga. A segunda, gostei bastante... a segunda leva-nos à primeira ;)))
Beijos enormes querida amiga :******;)))

Afixado por: alexandra em novembro 15, 2004 03:59 PM

motivou bastante!!!beijinhos sandra

Afixado por: Ana em novembro 15, 2004 04:15 PM

:)

Afixado por: Ardente_Mente em novembro 15, 2004 04:22 PM

Alexandra:

Tu realmente és fantástica no acompanhamento do meu trabalho. Nem imaginas (ou se calhar já imaginas) o quanto isso é importante para mim. Quanto ao que dizes do Carlos e a propósito dos seus depoimentos... bom, concordo! Tenho a certeza que ele vai gostar das tuas palavras.

Um beijo daqueles nossos ;)


Ana:

Ai motivou? eheheh... então Quarta-feira quero-te cá outra vez ;)

Jokinhas :)


Ardente_Mente:

Retribuo o sorriso :)


Afixado por: Sandra em novembro 15, 2004 06:23 PM

Ja conhecia o blog do Carlos e adoro o k ele escreve.
Sandra escolha excelente mais uma vez acho k achas-te um sucessor à altura da nossa Alex ;-)
Carlos parabens acho k escreves muito bem,vou voltar durante a semana para ver o resto. Beijos aos dois*****

Afixado por: Monica em novembro 15, 2004 07:06 PM

Carlos, meu querido...

Quando é que dás ares da tua graça aqui nos comentários? Não estás com vergonha, pois não ?
Olha que não vale a pena ;)

Afixado por: Sandra em novembro 15, 2004 07:51 PM

Já vistava regularmente o Manifesto. A escrita do Carlos é excelente e reconhecivel facilmente pela sua originalidade.
Parabens à Sandra pela escolha e ao Carlos mais um beijo.

Afixado por: Monalisa em novembro 15, 2004 08:33 PM

Queria deixar a minh marca pelas excelentes escolhas que fazes neste blog. Mais um excelente poeta.

Afixado por: Butterfly2 em novembro 15, 2004 08:34 PM

Monalisa:

o teu comentário é fundamental para reforçar a qualidade da escrita do Carlos. Nunca é demais fazer esse sublinhar. Obrigada pelas tuas palavras.

Beijinho :)


Butterfly2:

Fizeste muito bem em deixar a tua marca, na medida em que para mim é importante saber quem passa aqui pelo blog. Só te posso pedir para comentares mais vezes.

Beijinho :)

Afixado por: Sandra em novembro 15, 2004 08:47 PM

{ ... agradáveis estas palavras que deixas a ler sobre [carlos] ... } { ... deixo-te luz.de.tecto ... }

Afixado por: .8. em novembro 15, 2004 09:59 PM

A vós:

Chego aqui, e tanto elogio eu li, e depois da poesia mostrada a vós o que posso fazer agora é só agradecer a todos. Não quero particularizar, mas quero que saibam que todas as palavras de todos vós dirigidas a mim têm um grande significado pois são mais um estimulo para continuar, a viver pondo aqui a minha voz a escrito.
Muitos dos que manifestaram a sua simpatia aqui no Abismo e no meu blog já os conhecia, desde o inicio do meu blog que me acompanham dando sempre aquela força, mas esta está e vai continuar a ser mais uma oportunidade de, não só divulgar a minha escrita, mas também conhecer outros sítios que até aqui desconhecia e só por isso já estou a ganhar bastante. Porque nós, os que criamos e recriamos, não nos podemos colocar à margem do que se passa à nossa volta, é sempre bom descobrir e conhecer outros lugares onde se vive a escrita também.
Quero que o ritmo continue e mais importante do que me lerem é darem atenção ao que se escreve, ao que se sente por aí, por qualquer forma de expressão.
Por aqui estarei até ao fim da semana (vamo-nos falando entretanto :) ) e já sabem no Manifesto, o lugar onde melhor me exprimo, onde me vivo poetizando para todos vós e todos vós sentir.
E, mais uma vez, para todos vocês que me vão comentando, o meu profundo obrigado e um sorriso daquele tamanho. Continuem sentindo, me sentindo, amigos :)
À Sandra, mais uma vez, aquele abraço e beijo vindo cá de dentro em forma de amizade de verdade.

Afixado por: Carlos em novembro 15, 2004 10:11 PM