novembro 11, 2004

CARTAS


(Fotografia de José Marafona)

Quando o vento se levanta e passa, tua cabeça adormecida põe-se a brilhar. Em redor dela um halo de sombra onde a minha mão entra, vagarosamente, pedindo-te um sinal.
Procuro o rosto com os dedos afiados pelo desejo. Toco a alba das pálpebras que, de súbito, se abrem para mim.
Um fio de luz coalha na saliva no lábio.
Ouvimos o mar, como se tivéssemos encostado a cabeça ao peito um do outro. Mas não há repouso nesta paixão.
O dia cresce, sem luz- e os pássaros soltam-se do pólen dos sonhos, embatem contra os nossos corpos.
Nada podemos fazer.
Um risco de passos ensanguentados alastra pelo chão da cidade. A noite cerca-nos, devora-nos. Estamos definitivamente sozinhos.
Começamos, então, a imitar a vida um do outro. E, abraçados, amamo-nos como se fosse a última vez...

O tempo sempre esteve aqui, e eu passei por ele quase sempre sozinho.
No entanto, recordo: deixaste-me sobre a pele um rasgão que já não dói. Mas quando a memória da noite consegue trazer-te intacto, fecho os olhos, o corpo e a alma latejam de dor.
Dantes, o olhar seduzia e matava outro olhar. Agora, odeio-te por não me pertenceres mais. Odeio-te. Abro os olhos. Regresso ao meu corpo e odeio-te. E, quem sabe se no meio de tanto ódio não te perdoaria- mas ambos sabemos que o perdão não existe.
Se fugias, perseguia-te. Mas olhar começava a cegar. Sentia-te, já não te via. E o pior é que o tacto também esqueceu, rapidamente, a sensualidade da pele e o calor do sexo. O rosto aprendido de cor.
Hoje, tudo se sobrepõe. Nomes, rostos, gestos, corpos, lugares... um montão de cinzas que me deixaste como herança.
Não devo perder tempo com o ciúme. A paixão desgastou-me. E nunca houve mais nada na minha vida- paixão ou ódio.
Só isto: se me aparecesses agora, tenho a certeza, matava-te.


(Al Berto- O ANJO MUDO)

[Na medida em que para Al Berto o mar é/era uma referência intensamente abordada na sua escrita (por exemplo, através da ideia das viagens), faço acompanhar este texto da fotografia constante, também em memória do poeta/escritor, que tanto admiro. Por outro lado, senti-a como um bom cenário para envolver o texto em questão. E o mar é focado.... de novo... Sandra]

Publicado por void em novembro 11, 2004 12:03 AM
Comentários

Continua a ser estimulante, passado um ano que visito esta página, os conteudos aqui incluídos. Contudo, este é um blog, que requer um tempo sem pressas, para poder saboreá-lo. É o que faço regularmente...por vezes, o que me escapa, são as palavras para poder comentá-lo...Nem sempre a lucidez habita em nós, para o podermos fazer convenientemente...

Afixado por: valeria mendez em novembro 11, 2004 03:34 AM

Seja como for, querida Valéria, a tua vinda aqui e os registos que deixas são sempre mas sempre muito importantes. E, de facto, o tempo vai passando e cá continuamos: tu, eu, e o reencontro de nós.

:)**

Afixado por: Sandra em novembro 11, 2004 07:12 AM

Al Berto e o mar....

"quando escrevo mar
o todo entra pela janela"

Afixado por: carlos em novembro 11, 2004 08:58 PM

Saboreei bem este texto de Al Berto, um escritor cuja obra muito aprecio. Muita beleza nestas palavras. Muito sentimento. Beijinhos, Sandra

Afixado por: lique em novembro 11, 2004 11:39 PM

Carlos:

Que bom ter-te de volta! :)))
Pois... o excerto que deixaste é categórico...

Beijo enorme

Afixado por: Sandra em novembro 12, 2004 09:03 AM

Lique:

A tua opinião é sempre preciosa e muito estimulante :)
Sem qualquer dúvida, Al Berto é uma referência na Literatura Portuguesa. Incontornável, para mim.

Obrigada :)***

Afixado por: Sandra em novembro 12, 2004 09:06 AM

o prazer é meu, que volto.

depois da "normalidade".

só lamento o tempo ausente, sobretudo de mim mesmo.

Afixado por: carlos em novembro 12, 2004 09:33 AM

Podem existir ausências (ou intervalos de nós) que tornem melhores os tempos presentes e futuros. Há que extrair delas o que de bom nos podem dar. É importante que consigamos ver/perceber isso.

Beijo para ti, Carlos... outro :)

Afixado por: Sandra em novembro 12, 2004 10:06 AM

e triste quando o amor e dado apenas por1pessoa e quando esse amor, mais tarde, se transforma em odio.Mas é como dizem: o odio esta a um passo do amor, ou vice versa. E esse odio nao e mais do que a magoa e o ciume da perda da outra metade. A metade que preferiu ser expremida a unir-se a outra... =/
um beijinho

Afixado por: em novembro 12, 2004 12:34 PM

Aceito o beijinho tendo, contudo, pena que não tenhas deixado a tua identificação ou indicação de blog (caso tenhas, para eu poder visitar).
Quanto ao que dizes... julgo que há que considerar também a sua relatividade, atendendo a que nem sempre acontece ou pode não acontecer dessa forma com toda a gente... é que, no Amor não há regras. As relações humanas são deveras complicadas. Penso, contudo, que o texto de Al Berto que aqui apresentei pode levar a esse tipo de considerações e é interessante que assim seja, para estimular uma discussão/conversa.

Obrigada pela tua participação :)

Afixado por: Sandra em novembro 12, 2004 12:59 PM

Querida Sandra,
Independentemente de não me encontrar em fase semelhante ao espaço/tempo deste texto, quero dizer-te, com a fúria ausente que habita em mim numa constante de medo, repulsa, paixão e vazio: revi-me em cada palavra. Entrei dentro de cada palavra e, apesar de nunca ter lido nenhuma obra do autor (devido à falta de tempo ou oportunidade pois tenho este livro que referes), fiquei esfomeada de curiosidade e entusiamo vindos de mim em forma de ganância.
A imagem está em perfeita sintonia; um abismo de profundidade horizontal a perder-se no tempo.
Um beijo enorme para ti, querida amiga :* ;)

Afixado por: alexandra em novembro 12, 2004 02:21 PM

O que é que queres que eu te diga, Alexandra? ;)
Olha: lê o livro o quanto antes. É muito bom com mais textos perturbares ou serenos, conforme o teu estado para o receberes e assimilares.

:)***********

Afixado por: Sandra em novembro 12, 2004 03:12 PM

Obrigado Sandra um optimo fim de semana tb para ti! :)beijinhos

Afixado por: xana em novembro 12, 2004 07:13 PM