
(Fotografia de Jose Marafona)
Ele autocolou na testa um círculo branco de papel e percorreu os corredores atulhados de rostos, mochilas, nuvens de perfumes estonteantes, risos e vozes estridentes. Os seus colegas riram-se, disseram-lhe que tinha uma coisa na testa. Ele acenou, sorriu, disse-lhes que fora ele a pôr o autocolante. Eles não perceberam nem tentaram perceber «as loucuras de certa gente!...» e continuaram caminho, não havia tempo a ser desperdiçado com um tolo. Ele ergueu a cabeça e seguiu em frente, olhos virados para a sua testa, uns engasgos humorados, moscas de críticas a rondarem suas costas, ainda aqueles poucos que se quedavam na curiosidade. Ele só pensou como um pedaço de papel que ele não via podia transtornar tanto os outros, como as pessoas podiam incomodar-se mais do que ele próprio.
Se o mundo inteiro fosse cego, nada seria assim tão visual. Não se preocupariam com a última moda, a melhor marca de ténis ou o biquini da Christian Dior. Revolucionar-se-iam os perfumes, cada um com a sua fragrância, uma mais poderosa que a outra, outra mais débil ou mais vulgar. Não haveria romances de carta ou grandes comunidades virtuais. As pessoas ouvir-se-iam e guiar-se-iam pelas palavras audíveis em vez de falarem disparates e fingirem escutar o que lhes é dito. O toque seria extremamente importante e beijar-se-iam somente os íntimos. Abraçar-se-iam os amigos e os desconhecidos, o corpo seria um lugar palpável, explorado e ninguém a mentir o acne ou a resistência física pois nenhum espelho e nenhuma comparação. Cantar-se-ia sem medo, a voz como um meio imprescindível de comunicação, fazer-se-iam palestras e reunir-se-iam bocas nas tardes de verão para grandes conversas filosóficas. A escultura e a música seriam a arte e a pintura transformar-se-ia num buraco de sentimentos interiores, um diário imaginado cujas cores do pincel seriam os segredos do pintor.
Se o mundo inteiro fosse cego, ninguém conheceria a morte e a vida do sol e da lua, nenhuma íris se encontraria noutra, nenhuma aurora boreal a inundar o peito de uma felicidade misteriosa, nenhuma palavra ensanguentada a gritar socorro a beleza dos jardins florescentes, das cascatas, dos arco-íris e das fotografias, tudo isso rasgado à alma.
Se o mundo inteiro fosse cego de corpo, não seria cego de alma também?
(Dina- VIRGENS SUICIDAS)
[Mais um daqueles textos que tanto te caracteriza e que eu adoro. Beijokinhas para ti. Sandra]
Publicado por void em outubro 29, 2004 09:18 AM
Nao sei responder se o mundo seria cego de alma caso o fosse de corpo.
Mas sei que este mundo em que vivemos e um mundo de aparencias, de sociais, em que o exterior vale por mim interiores.
E um mundo vergonhoso. E tantas sao as vezes em que tenho vontade de fechar os olhos e cegar por instantes na esperança de que quando os abrir o mundo estara bem melhor e cego de corpo.
Pois é Sandra... e a mim, é-me totalmente impossível ficar indiferente à escrita da Dina... já conhecia este texto... as tuas palavras, Dina, fazem-me sempre reflectir sobre o mundo que nos rodeia e outros tantos invísiveis. Muita força. Beijinho para ti e para a Sandra :*
Afixado por: alexandra em outubro 29, 2004 04:15 PMAna:
Fizeste uma excelente reflexão a partir do texto da Dina. Concordo, de facto, com aquilo que dizes. E uma coisa te garanto: quanto mais avançares na idade mais te vais apercebendo, com pesar, (se a tal continuares sensível) do mundo-cão (sem desprimor para os cães, obviamente) em que vivemos.
Alexandra:
Pois é... pois é... a "minha menina" (é assim que eu desde que a conheço a trato, de forma particularmente meiga e carinhosa) é um must. Tenho (e sempre tive) um grande orgulho nela. Eu adoro "de paixão" esta catraia :)))))
Beijos para vocês.
Afixado por: Sandra em outubro 29, 2004 06:51 PM