
(Fotografia de Margarida)
Assusto-me quando me vejo escrita dentro do que escreves. Não quero, é uma sensação de desconforto. É como se uma palavra escrita por ti fizesse sombra no meu coração. Como se uma palavra se desprendesse da minha vida e volteasse à minha volta em círculos de desgosto e pesadelos por tudo o que me fizeste viver. Sempre acreditei que provocasses isso, essa forma de escrever onde tudo é arrancado da minha árvore emocional. Sinto-me cansada de ler os meus actos desfigurados pelo teu pensamento. Temos uma vida de merda, nunca pensei. É esta a ideia que tenho quando as palavras representam de uma forma grotesca tudo aquilo que não senti.
Caminhamos juntos e falo-te como se a verdade do que sinto fosse a minha nudez. O que acontece é que as pessoas que já não se amam não desejam nenhuma verdade. Utilizam as palavras para se protegerem do sofrimento e da fraqueza que as impede de chegarem a um fim. E ficam tão fracas em tudo o que dizem (fracas e confusas como uma folha de uma árvore que não sabe onde cair), que o que dizem é um resto das suas vidas a decompor-se no tempo.
Nunca tenho coragem de dizer que não gosto do que escreves sobre mim. Não tenho coragem; da mesma forma que não me vejo desmembrada pelas discussões sobre a vida. Podia ser tudo simples, se cada palavra tua não dissesse mais do que sinto.
Abrir um livro e ver-me num plano do já vivido é o pior sentimento que posso sentir. Deverei estar habituada, eu sei, tudo o que eu disse a ser conduzido pelas tuas palavras. Os meus actos a serem protegidos pela mentira inspirativa no momento de me escreveres. Não gosto dos teus livros como não gosto de me olhar num espelho quando choro.
Não compreendes. Quem escreve não pode compreender o desespero que deixa na pessoa escrita. A sensação é a mesma que experimentamos no fim duma discussão. Existe uma tranquilidade amarga mas ainda assim suportável e longínqua. Como se alguma coisa de estranho viesse de longe para nos ensinar a permanecer calmos e conscientes dentro do caos que sentimos no momento.
Talvez escrever seja assim, tu deves saber.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA
[Fernando: este é um dos teus textos que mais gosto. Disseste que a sua produção/elaboração se baseou num filme que eu também vi. Deve ser, precisamente por isso, e por ter sentido tanto esse filme, que este teu trabalho me fascina tanto. Beijo.]
...obrigado sandra pela tua visita que agradeço e retribuo...volta sempre que queiras... beijo
Afixado por: quim em outubro 26, 2004 10:37 AM