
(Fotografia de Marília Campos)
toma a minha transparência
vinho opaco
fogo azul
cristal cimentado
sou um amontoado
de penas
arrancaste-as
escreveste na minha carne
viva
com os pedaços de espelhos que
quebraste
da minha imagem
da tua imagem
de bagas venenosas
dás-me veneno
do teu cálice profano
mergulho no teu mar
profundo
e afogo-me na superficie
apenas...
enterras-me em ti
viva
inalo-te
és aroma de mortandade
apercebo-me que estou
afogada no veneno que o teu corpo
verte
em pedaços que flutuam
de carne
que também é minha
da carne que é tua
e há sangue neste chão
de terra vermelha
sangue que se mistura
com a tua essência de homem
e há poeiras que se baralham
em conflito na tua mão
maçãs coaguladas
essência de mim, que evaporou
escreveste na minha carne
viva
com espelhos de nós
que quebraste
com penas do meu corpo
de pássaro que chora
és aroma de mortandade
que me invade a carne
acutilada
a carne escrita de palavras
que já não existem
palavras escritas em pedaços que flutuam
queria dar-te
toda a transparência
de vidro baço
que sou
queria dar-te
todo o fogo azul
que tenho
juntaste pedaços de carne
de cristal
cimentado
enterraste-os
e eu morri na tua
superficie
com o teu aroma
apenas...
(Alexandra Antunes- FRÁGIL)
[Alexandra: a tua escrita é absolutamente fantástica. É, sem dúvida inequívoco, o seu merecimento para aqui ser divulgada. O meu grande pecado: o tardar da descoberta ;) Um beijo enorme.]
Publicado por void em outubro 25, 2004 06:52 AMQuerida Sandra... :) bem... que te dizer? Não estava à espera que escolhesses este!; há imenso tempo que não o relia... Também fico sem palavras para agradecer o teu gesto tão bonito ao editares um poema meu aqui na Void. Fizeste-me sorrir... creio que gostarem do que escrevemos nos deixa felizes; a mim sim... muito!
Um beijo enorme :*
São poucos, muito poucos, os que tem o dom de nos tocar com as palavras que nos dizem, que escrevem encadeadas.
Frágil fico eu, depois de ler a Alexandra. :]
Concordo em absoluto com o que dizes Adamastor. Outros trabalhos da Alexandra serão aqui editados para confirmar tudo aquilo que este já demonstra.
:)
Afixado por: Sandra em outubro 26, 2004 06:43 AMQuem não escreve ternamente com os dedos sobre a pele de outrem, mas com garras cravando sulcos de letra, talvez apenas se exorcize e talvez apenas por um dia. No ente errado, com o impulso errado, até ao dia em que o precise de fazaer outra vez. Já alguém disse que "o inferno é repetição". Há quem viva nele sem saber ou querer sair...porque até se sente mkbem lá. O seu poema é um retrato de quem sofre por e com quem não procura redenção. Mas quem fica com as marcas na alma e corpo-folhas de papel...cresce nãqo se prende...beijos
Afixado por: João em novembro 26, 2004 02:23 PM