
(Pintura de Pavel Surma)
Acabou de sair para o mercado o último livro de poesia de Fernando Ribeiro, vocalista da banda Metal portuguesa "Moonspell". Intitula-se o livro As feridas essenciais e tem a chancela das Edições Quasi.
Deixo-vos, hoje, com 3 poemas constantes no livro:
HOJE ACORDÁMOS EM SÍTIOS DIFERENTES
Eu, no meio das ruínas que se movem, das sombras que sopram, das almas em fuga para dentro da vida.
Tu, no meio das ruínas paradas, das sombras que já não respiram, das almas em fuga para longe da vida.
Amanhã, sempre amanhã, tentaremos acordar no mesmo sítio de sempre e o abismo do medo e da dor irá rir-se de nós enquanto nos engole ou nos deixa passar.
O TOQUE DA MORTE
Quem possui o toque da morte
não sabe a sorte que tem e de como irá fazer tantas pessoas felizes.
Porque o toque da morte é uma espécie de cura sem mentira.
Quem toca com o toque da morte
desconhece, por completo, o seu dom
e como o transmitir às pessoas que, verdadeiramente,
esperam por ele para começar a viver.
Porque o toque da morte faz-nos descer à terra
de onde nunca deveríamos ter levantado as nossas cabeças
e que nunca deveríamos ter pisado com os nossos pés.
NOCTÍCULA
Quando cair
Na altura da queda de todos os dias,
Da altura da queda de todos os dias,
Esticarei o braço curvado em raiz,
Corrupto nas pontas que me servem de olhos na queda,
De dedos de tremer, de amparo que rasga,
Para quando chegar ao chão
Se disperse o nada de mim e infecte o tudo dos outros.
Quando cair
na altura da queda de todos os dias,
Da altura da queda de todos os dias,
Vou agarrar uma partícula da noite
E consegui-la apertar na mão em garra doente.
Apertar até fechar com os dedos por fora do que está dentro
E levá-la comigo, secretamente.
Na garra bem fechada, na mão de eclipse que contém o eclipse.
Vou levá-la para entrar nela sempre que quiser.
Para entrar nela e me esconder de ti
Mesmo sabendo que tu me vês.
Em qualquer noite em que eu esteja.
Para breve mais 3 poemas desta mesma obra. Até lá fiquem com este iniciado ambiente tipicamente Gótico.