setembro 16, 2004

A DOR MAIOR

Eis a edição de mais um texto destacado pelo DN Jovem. Mais uma abordagem de uma realidade tão presente. Mais uma visão pessoal. Mais uma criação.
Atentem:

Antecipar a dor, dor maior que a dor.
Sofrer por imaginar que o sofrimento se aproxima, dar passos de medo porque já se conhece ou pensa que se conhece o que aí vem –pesadelo intrínseco ao humano que pensa, que mede o que faz, o que os outros fazem, o que mundo faz, e termina enrolado, frustrado por ser quem é, por uma das faculdades que tem, sem nunca a ter pedido a quem que seja, ser uma lâmina imparável que fere as entranhas, rasgando cada minúsculo tecido como plástico fino, incapaz, capado de força.
Uma tarde, chuvosa, de trevas cerradas, em que a ausência é dita, é uma tarde, são muitas tardes, muitas noites, muitas manhãs em que a ausência é sentida, mesmo que ela, a ausência, ainda não seja, ainda não exista, seja ainda presença, presente, é a ausência que já governa o que somos, é a ausência que manda na presença – a ausência parece ser a única que à partida consideramos, ou admitimos, que pode ser eterna, tememos que a presença não volte, que se resigne a ser ausente, e por isso, quando deixamos que a presença seja ausência quando ainda é presença, estamos dentro de nós a lutar contra o terror de imaginarmos que a volatilidade é um fato que só serve à ausência, demasiado dispendioso para algo, alguém, tão humilde como a presença. E enquanto a presença existe, enquanto temos o que a tarde nos disse que íamos perder, nem que seja temporariamente, não conseguimos estar absorventes perante o que temos, estamos desligados de nós, da realidade que vivemos, e desperdiçamos o tempo já pouco, entregando-o sem resistência nos braços do tempo que ainda não é mas que é tanto como se já fosse.
Sou assim, mas não perante o tempo temporário, antes perante o tempo final, a vida que vai ser morte. O mecanismo é o mesmo: um momento, indefinido e variável, em que a partida fica destinada – nós sabemo-lo, não há como fugir. Um dia, a presença vai ser ausência, a vida torna-se morte, nós tornamo-nos nada. E depois, quando esse dia já é passado, quando essa notícia já circula pelo vento, é a certeza de que nada vale a pena, nada, se está destinado a terminar – projectar é criar, imaginar, dar vida, que sentido faz desenhar futuro quando é um futuro a prazo?
Sofro pela presença, por ser, e não pela ausência, porque se nunca tivesse presença, vida, jamais sentiria a ausência, seria uma ausência, somente – e as ausências não sofrem por ausência, como as mortes não sofrem por mortes, só as vidas soçobram sob as tenazes da morte.
Antecipamos a saudade, antecipamos a dor – a coerência diria que teríamos de antecipar igualmente a morte, e morrer em vida tal como sentimos saudade na presença de quem sabemos que vai ficar ausente.

Sou ausência, presente. Sou morte, vivo.

(Pedro Chagas Freitas, 24 anos, jornalista, Guimarães)


Publicado por void em setembro 16, 2004 06:27 AM
Comentários

A morte! Esse Anjo de cores lugubres, sentada no trono do inverno...

Afixado por: abismo em outubro 4, 2004 12:03 AM