Eis a edição de mais um texto destacado pelo DN Jovem. Mais uma abordagem de uma realidade tão presente. Mais uma visão pessoal. Mais uma criação.
Atentem:
Antecipar a dor, dor maior que a dor.
Sofrer por imaginar que o sofrimento se aproxima, dar passos de medo porque já se conhece ou pensa que se conhece o que aí vem –pesadelo intrínseco ao humano que pensa, que mede o que faz, o que os outros fazem, o que mundo faz, e termina enrolado, frustrado por ser quem é, por uma das faculdades que tem, sem nunca a ter pedido a quem que seja, ser uma lâmina imparável que fere as entranhas, rasgando cada minúsculo tecido como plástico fino, incapaz, capado de força.
Uma tarde, chuvosa, de trevas cerradas, em que a ausência é dita, é uma tarde, são muitas tardes, muitas noites, muitas manhãs em que a ausência é sentida, mesmo que ela, a ausência, ainda não seja, ainda não exista, seja ainda presença, presente, é a ausência que já governa o que somos, é a ausência que manda na presença – a ausência parece ser a única que à partida consideramos, ou admitimos, que pode ser eterna, tememos que a presença não volte, que se resigne a ser ausente, e por isso, quando deixamos que a presença seja ausência quando ainda é presença, estamos dentro de nós a lutar contra o terror de imaginarmos que a volatilidade é um fato que só serve à ausência, demasiado dispendioso para algo, alguém, tão humilde como a presença. E enquanto a presença existe, enquanto temos o que a tarde nos disse que íamos perder, nem que seja temporariamente, não conseguimos estar absorventes perante o que temos, estamos desligados de nós, da realidade que vivemos, e desperdiçamos o tempo já pouco, entregando-o sem resistência nos braços do tempo que ainda não é mas que é tanto como se já fosse.
Sou assim, mas não perante o tempo temporário, antes perante o tempo final, a vida que vai ser morte. O mecanismo é o mesmo: um momento, indefinido e variável, em que a partida fica destinada – nós sabemo-lo, não há como fugir. Um dia, a presença vai ser ausência, a vida torna-se morte, nós tornamo-nos nada. E depois, quando esse dia já é passado, quando essa notícia já circula pelo vento, é a certeza de que nada vale a pena, nada, se está destinado a terminar – projectar é criar, imaginar, dar vida, que sentido faz desenhar futuro quando é um futuro a prazo?
Sofro pela presença, por ser, e não pela ausência, porque se nunca tivesse presença, vida, jamais sentiria a ausência, seria uma ausência, somente – e as ausências não sofrem por ausência, como as mortes não sofrem por mortes, só as vidas soçobram sob as tenazes da morte.
Antecipamos a saudade, antecipamos a dor – a coerência diria que teríamos de antecipar igualmente a morte, e morrer em vida tal como sentimos saudade na presença de quem sabemos que vai ficar ausente.
Sou ausência, presente. Sou morte, vivo.
(Pedro Chagas Freitas, 24 anos, jornalista, Guimarães)
A morte! Esse Anjo de cores lugubres, sentada no trono do inverno...
Afixado por: abismo em outubro 4, 2004 12:03 AM