Deixo-vos com mais um texto concorrente ao DN Jovem e cujo destaque foi merecido:
A nossa casa era uma sólida mansão que ficava num campo que se cobria de papoila sanguíneas. O meu irmão encontrava diversão nos pássaros do vale, a minha mãe bordava enxovais com motivos campestres para noivas rosadas, o meu pai embalsamava na cave escura os cadáveres que aqueles campos produziam, enquanto a minha mãe recebia alternadamente as bonitas noivas ou os chorosos familiares das vítimas com biscoitos e chá. Os campos providenciavam tudo o que necessitávamos para sobreviver: o sol, os pássaros, as flores, as frutas, os mortos. Eu, como era o mais introvertido e a minha natureza não me permitia encontrar beleza no mundo exterior, ficava na cave com o meu pai observando. Aprendi como mascarar a palidez, o fedor, as cicatrizes, e o meu pai instintivamente tomou-me como o seu natural percursor, ensinando-me os truques e trâmites da arte de transformar algo sórdido numa obra prima. Com o tempo, o meu pai morreu e fui eu que o preparei, deitando-o num acetinado caixão preto e assim, tomando o seu lugar.
A morte era a grande janela para universos que de outro modo nunca desvendaria porque era reservado e não tinha amigos para além daqueles que me confiavam os seus corpos no seu pior momento, e eu sussurrava-lhe coisas que sabia que só eles poderiam compreender. Nunca as noivas poderiam entender na sua candura virginal o que a dor significava e por isso eu desprezava-as e assim a própria cidade, com os seus cafés movimentados e raparigas desenvoltas, fechou-me as suas portas, catalogando-me de bizarro, que só teria lugar no campo, fechado numa cave negra, que é como um limbo, mas na Terra.
Pelo menos até à Dora, e a Dora apareceu linda toda de branco, mas esta noiva tinha em si a alegria campestre que eu só vira nas flores e a vida pulsava nela como um campo magnético. Foi esta vivacidade que me atingiu e eu tropecei, mas nela havia uma doçura inegável e quando me estendeu a mão, toda ela era quente e elástica, tão diferente do toque pegajoso e frio dos corpos que eu antes conhecia.
Não acredito que tenha pensado que aquilo era amor porque nunca experimentara nada que exigisse a colaboração de outro ser humano vivo. Ao casarmos, Dora insistiu para que eu me desfizesse da casa mortuária na cave e foi isto que me fez ter pesadelos à noite, porque os mortos eram os meus fieis amigos e sem eles principiei a sentir um vazio incomensurável. Bebia para dormir e como não dormia, tornava-me febril e o calor do corpo dela enlouquecia-me. Depressa, talvez logo na semana seguinte a entaipar a porta da cave, eu soube o que ia suceder. Era a ideia do calor dela à noite na cama que me obcecava.
Dora e o peito cálido como rosas na minha mesa e a beleza tenra dela um crime de deixar o tempo consumir. Ela bebera o láudano todo ao jantar sem desconfiar e morreu durante o sono o que lhe permitiu manter as cores saudáveis e assim o meu trabalho foi mais simples e o resultado final mais natural. Vesti-lhe o vestido de noiva que lhe fora despido há só umas noites e inspirei o familiar cheiro do formol que vinha do corpo embalsamado dela, o toque quente das suas mãos substituído pela gélida caricia da morte, que tanto me acalmava.
Carreguei-a para o nosso quarto nos meus braços, tal como a carregara na nossa recente noite de núpcias, mas desta vez ela não se ria , a sua cabeça loura tombava contra o meu ombro solene e serena. Deitei-a no leito e tombei exausto sobre o seu peito onde mais nenhum retumbar irritante me mantinha acordado, onde mais nenhum respirar ondulante me desconcertava, onde mais nenhum calor corporal me perturbava e dormi um sono solto até ao outro dia de manhã, quando tive de a depositar num bonito caixão negro e enterrá-la debaixo do campo cheio de papoilas.
(Lore Lei, 21 anos, Estudante de Letras, Abrantes)
Publicado por void em setembro 13, 2004 07:10 PM