setembro 12, 2004

PERGUNTEI AO VENTO

Deixo-vos com mais um texto concorrente ao DN Jovem e por si premiado. Desta vez, uma muito jovem autora. Leiam o texto, leiam! Atentem à mensagem transmitida.

Perguntei-te um dia se conhecias o guardador de rebanhos, aquele pequeno moço, olhos amêndoa e cabelo mestiço, um cheiro a amora no ar de um vestígio de prado longínquo, mergulhado no profundo silêncio de um rosto que se perde a leste, num horizonte desconhecido. Disseste-me que raramente o vias. No caminho que fazias, de casa ao trabalho, de nada te davas conta senão do andamento dos teus próprios pés, do ritmo a que se moviam os músculos de um corpo ágil, quase perfeito.
Perguntei-te pelas flores que sorriam ao vento, num balouçar quase angelical, e tu disseste que não tinhas tempo sequer para olhá-las. De uma outra vez, num outro dia, tentarias fazê-lo, prestar-lhes mais atenção. Quis dizer-te que essa outra vez poderia nunca chegar, e perguntar-te se aquilo em que te baseavas para pensar que sim valeria tanto quanto aquele momento em que poderias ter parado e escutado o vento. Ter-me-ias respondido, não fosse um outro assunto não mais relevante ter-te preenchido o tempo, aquele tempo cuja preciosidade aumentava a cada minuto que deixavas escapar.
Comecei por explicar-te a estranheza que me causava, por cada vez que atravessava o prado e o encontrava a ele: o pequeno pastor. Falei-te da roupa que normalmente envergava mas mesmo assim não consegui avivar-te a memória. Continuavas, certamente, perdido algures entre o riso que te provocavam as minhas palavras e o assunto de há pouco – trabalho, disseste. Questionei-me se algum dia terias pensado em algo mais que estivesse para além de ti, uns poucos metros à tua frente, à tua esquerda, em teu redor. Os meus olhos devem ter denunciado o meu pensamento porque automaticamente te ouvi dizer que não tinhas tempo para pequenas coisas; como se a importância das coisas pudesse ser medida com régua e esquadro, traçando as linhas de um desenho desigual, ímpar na perfeição. Disseste-me que importante, sim, era viver em forma de hélice, numa rotação constante pelos espaços cosmopolitas, num ciclo de vícios banais, fazendo questão de frisar que vício não seria, obrigatoriamente, sinónimo de destruição – como se não existissem outras formas de destruição, para além de um qualquer vício.
Disseste que o pouco tempo que te sobrava, não deveria ser gasto – e sublinho gasto com a mesma prepotência que a mim fizeste chegar – a admirar vozes que não existiam, como a do vento, nem sons mudos, como o silêncio em murmúrios transcendentais. Todo o tempo deveria centrar-se em ti, no que te dava prazer de fazer, ou não, naquilo que fazia os outros admirarem-te, sem conhecerem, no entanto, que por debaixo de um homem de sucesso estava o vazio de uma alma decadente, ainda que, aparentemente, todos os teus alicerces te sustivessem no auge.
Desisti de tentar fazer-te compreender que existia um mundo para além de ti, e que a tua vida só era possível porque todos os outros tinham existido, ou existiam ainda; até mesmo as flores que não sabias possuírem um canto próprio.
Então, despedi-me com a mesma sensação com que havia chegado: âncora largada algures em águas profundas, a tua alma era estagnação e desencanto, que acabaria por te devastar a ti, enquanto corpo. Nada que não se passasse com comuns mortais, teus semelhantes, tão cúmplices de ti por isso.

(Inês Alves, 17 anos, estudante, Moita)


Publicado por void em setembro 12, 2004 07:54 PM
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