Com este post inicio a apresentação de textos concorrentes ao DN Jovem e por si divulgados pelo reconhecimento especial conseguido, concretizando, desta forma, o que há dias (08/09) foi anunciado.
Desejo que esta iniciativa vos agrade e que os trabalhos aqui editados sejam um ponto de partida não só para reflexões como também para possíveis criações.
Mas... vamos ao texto:
Eu sou um poço. Um poço negro. E, daqui a alguns dias, quando alguém içar um balde de dentro de mim, activando o mecanismo que faz passar uma corda por esta roldana, hei-de secar por completo, até a última partícula líquida se evaporar no meu interior.
A derradeira gota de água. Parada. Morta. Como eu. Daqui, desta janela, divisa-se um outro poço, parecido comigo, ao qual as pessoas recorrem diariamente para se abastecerem de água.
Ao contrário dos habitantes da cidade onde nasci, aqui, no campo, as pessoas ignoram a funcionalidade das torneiras. Há mesmo quem jure a pés juntos nunca ter sentido necessidade de instalar tal engenhoca na sua morada.
Por vezes, torna-se bizarro assistir à procissão de aldeãos que aqui vêm buscar baldes e baldes de água, tanto para ser utilizada na cozinha como na sua higiene diária. O mais estranho nisto tudo, penso, é o facto de todos eles ignorarem a minha existência, contentando-se em retirar água de dentro do poço que dista apenas alguns metros da minha casa. Há quem me mire de soslaio, por entre os caixilhos da janela, onde passo a maior parte do tempo. Parado. Morto. Como um poço.
Mas, até há algum tempo atrás, jamais alguém se dignara a requerer os meus préstimos, ou seja, nenhum dos moradores que aqui acorrem para encher selhas e vasilhas com água alguma vez se lembrara de desviar a tábua que me sela a boca e se servir da complexidade de canais que, antigamente, afluíam nas minhas entranhas. Até surgires tu, tão negra e profunda quanto eu, apta a esvaziar o conteúdo da minha solidão de pedra. Agora, porém, mais não comporto do que um mero vazio circular, ladeado por mosaicos de tijolos, tingidos de musgo e verdete, sobrepostos uns aos outros, formando um poço sem fundo. Profundo. Negro. Como eu.
(Miguel Marques, 25 anos, Psicólogo, Lisboa)
Publicado por void em setembro 11, 2004 08:25 AM