setembro 05, 2004

O AMIGO MORTO


(Fotografia de José Marafona)

O tempo cobre-se de musgo.
O amigo morto ocupa cada vez menos espaço na cela do meu corpo. Desaparece na verocidade que a terra tem ao apagar qualquer vestígio de vida ou de morte.
Ele tem dificuldade em conservar a sua morte intacta. Sublima-se, a pouco e pouco, dilui-se no sangue inquieto- é o início do esquecimento; esse imenso limbo semi-escuro onde flutuarão rostos e gestos, corpos e palavras- e nada terá sentido.
Mas reconhecerei as ruínas daquilo que amei, daquilo que nomeei para entender o mundo. A vida já ali não estará, e eu lembro-me: nenhum recanto dos gestos me era desconhecido. Nenhuma sedução me era estranha.
A noite foi-se tornando cada vez mais pesada sobre os ombros.
As roupas deixaram de estilhaçar debaixo das carícias.
Os olhares foram-se fixando, horas a fio, por entre os papéis amachucados, atirados ao chão. A máquina de escrever parou.
Os livros encheram-se de poeira, fecharam-se para sempre com a nossa história dentro deles. Não voltaram a abrir-se.

(Al Berto- O ANJO MUDO)

Publicado por void em setembro 5, 2004 07:44 AM
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