
Não tendo sido, até ao presente, este blog particularmente voltado para a abordagem (directa) de determinadas realidades, tal pode vir a alterar-se, gradualmente, por necessidades de manifestação sentidas pela sua responsável. Há dias trouxe aqui a questão do aborto, através do registo de ideias e imagens em torno da vinda a Portugal do barco holandês "Women on Waves". Hoje, trago uma outra realidade que se tem desenrolado este Verão no nosso país e que desembocará na 1ª semana de Outubro com a eleição/confirmação de um novo Secretário-Geral para o Partido Socialista (PS). Como militante do PS que sou, não poderia deixar de tomar uma posição. Como cidadã, não posso deixar de me preocupar com o que se passa na cena política nacional, sendo que as eleições no PS são muitíssimo importantes neste contexto, inclusive pela forma como têm decorrido e pelo significado que isso tem junto de milhares de militantes, que vão ser chamados a pronunciar-se. Cada militante um voto. Cada voto, o resultado da consciência (íntima) de cada um. Este dar voz aos militantes, é um exercício de democracia inequívoco. O "povo socialista", vai poder pronunciar-se. Nem só de notáveis ou influentes nas estruturas vive(rá) o PS. Agora, o alargamento vai ser total, podendo dai advir resultados absolutamente inesperados.
Pessoalmente tenho um candidato à liderança. O meu candidato é Manuel Alegre. Identifico-me, em pleno, com as suas ideias e propostas. Entendo correctas as suas críticas. Partilho as suas chamadas de atenção. Junto-me, pois, a todos aqueles, que têm dado o seu contributo para a evolução desta campanha e que ajudaram a elaborar a Moção que vai ser apresentada ao Congresso e que já está disponível para todos os interessados.
No sentido de complementar esta minha posição, deixo um artigo escrito por Helena Roseta no jornal "Público", a 31 de Agosto, explicitamente revelador do que tem sido, é e significará, a candidatura de Manuel Alegre. Ei-lo:
"O que mudou no PS"- Helena Roseta faz balanço da campanha
1. A eleição de um novo Secretário-geral do PS parecia estar decidida quando José Sócrates confirmou a sua candidatura. Estava tudo no seu lugar. Um candidato da continuidade guterrista, escolhido por meia dúzia de pessoas à mesa de um almoço na Curia. Sócrates estava destinado a repor ordem no PS, depois do intervalo de Ferro Rodrigues, perseguido como nenhum outro político em Portugal, mal amado pelo partido, etiquetado de "líder a prazo" apesar dos sucessivos êxitos eleitorais. O candidato da oposição interna, João Soares, também era previsível. Já se tinha perfilado durante o tempo de Ferro Rodrigues sem suscitar entusiasmo. O calendário da sucessão estava definido: em finais de Agosto estaria tudo decidido, no recato interno, longe das polémicas da comunicação social. O voto directo dos militantes pouco mais seria que uma ratificação. Tudo se passaria durante as férias e com as secções do partido encerradas.
2. A candidatura de Manuel Alegre alterou os dados do problema. Começou-se por convencer a Comissão Nacional do PS a alargar os prazos processuais para garantir um mínimo de participação. Depois Manuel Alegre apresentou-se como uma candidatura de mudança, no PS e no país. Propôs-se combater a visão aparelhística do partido, insistiu nos debates abertos à comunicação social. Sócrates reagiu mal, mas teve que ceder. Alegre foi o primeiro a apresentar a sua moção. Nela avançou, entre muitas outras propostas para modernizar Portugal, duas ideias-força: uma nova visão do papel do Estado e uma nova maioria política para governar.
3. Ao Estado mínimo que a direita defende e aplica, contrapôs Manuel Alegre o Estado estratega, com um papel relevante na definição de objectivos nacionais para o crescimento económico. Crescimento que é inseparável da inovação, o que implica que o Estado estratega seja também o Estado da inovação, capaz de garantir um processo tranversal de abertura à inovação e ao risco em toda a sociedade, o que é muito mais vasto do que o plano tecnológico de que falou Sócrates. As novas missões do Estado na economia vão muito além do simples papel regulador dos mercados, a que na década de 90 se reduziu o discurso socialista na Europa e em Portugal.
4. Manuel Alegre também falou com toda a clareza contra o "centrão". É sabido que o centro sociológico vai atrás das dinâmicas de vitória. Face à crise económica e social, o centro sociológico em Portugal está a "pedir" uma alternativa à governação da direita, como se viu nas eleições europeias. Não se combate a direita com mais do mesmo ou com uma simples alternância de poder. A estabilidade, para Manuel Alegre, pode construir-se à esquerda e essa é a missão histórica do PS nos próximos anos.
5. A recusa do centrão, o cansaço das pessoas perante a "alternância sem alternativa" e a frustração com a deriva tacticista da fase final dos governos minoritários de Guterres criaram condições para que as posições de Alegre desencadeassem uma nova esperança, não só no PS mas no eleitorado de esquerda. Tristes ou mesmo zangados com a decisão de Sampaio de reconduzir a direita no poder sem eleições, os eleitores da esquerda ouviram pela primeira vez desde o 25 de Abril um potencial líder do PS afirmar aquilo que nunca foi experimentado em 30 anos: a possibilidade de construir uma alternativa em que toda a esquerda se reconheça e que por isso mesmo possa mobilizar a maioria social e política do país.
6. Foi por perceber isto que Sócrates, para quem a ideia do diálogo à esquerda era tabu, acabou por mudar de ideias e incorporar esse diálogo na sua moção, embora de forma sub-reptícia. A candidatura de Alegre conseguiu assim mudar a agenda do PS. E ao mudar a agenda do partido, criou condições para mudar o país.
7. Não se consegue mudar o país se não se mudarem os partidos que dominam o espaço da decisão política. Maus partidos fazem uma má democracia. E com má democracia não pode haver verdadeiro desenvolvimento económico, cultural e social. Por isso as propostas de Manuel Alegre para a reforma interna do PS são radicais. Lutar contra o aparelhismo, criar mecanismos de participação permanentes, aumentar a transparência interna, instituir a paridade de género a todos os níveis, pôr termo à acumulação de mandatos, obrigar os eleitos partidários a apresentar declarações de interesse, cortar com a cumplicidade ou mesmo promiscuidade entre comissões concelhias, autarquias e construção civil. São propostas que incomodam mas que estão a gerar uma onda de grande adesão junto de militantes e simpatizantes socialistas. Basta acompanhar as acções de Manuel Alegre no terreno para verificar isso. Salas cheias em todo o lado, entusiasmo e militância contrastam com a campanha morna do candidato "oficial".
8. Tudo isto faz prever que as eleições do PS possam trazer resultados surpreendentes. Maior participação, menor abstenção, podem alterar todos os cenários. Nenhuma vitória antecipada está garantida. A vitória a que Manuel Alegre se referia, ao dizer que a sua candidatura "já ganhou", é outra: já mudou a agenda e já fez renascer a esperança. Seja qual for o resultado do Congresso, Manuel Alegre já averbou um sucesso imprevisível há um mês atrás. Acabou com o tabu da impossibilidade de uma maioria de esquerda em Portugal. E isso pode vir a mudar tudo."