agosto 31, 2004

QUE TUDO SE APAGUE

Aquele que me habita, e escreve, vive algures numa espécie de treva. Quase nada sabe da sua própria escrita. Menos ainda falar dela.
Sabe, apenas, que por instantes uma incandescência terrível cresce dentro de si, ergue-se, nomeia as coisas e o mundo, apaga sombras, revela os ossos muito antigos das palavras... de resto, mais nada.
É no escuro das casas que se debruça para o papel e escreve, como se fosse o último homem a fazê-lo.
O deserto alastra em seu redor. Está só, tudo esqueceu.
A pouco e pouco o seu olhar reinventa um rosto, devassa um coração- a noite põe-se a pulsar, sangra- e a precária escrita ensina-lhe como alcançar o definitivo silêncio.

Apenas deseja que no momento em que parar o coração- e num movimento derradeiro se confundir ao estrume da terra- tudo se apague: manuscritos, livros impressos, fotografias, cartas, bilhete de identidade, registo de nascimento, etc.
E da sua passagem nada reste, absolutamente nada. Nem mesmo a impressão digital sobre o rosto que o acaso da paixão o fez tocar.

(Al Berto- O ANJO MUDO. Fotografia de Margarida)

Publicado por void em agosto 31, 2004 06:40 AM
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