
(Fotografia de Margarida)
Cais várias vezes em determinadas situações.
No meio de uma sala.
Quando percorres a distância entre uma palavra e outra palavra.
Cais simplesmente perante uma pessoa.
Eu sei que este acto da tua vida não depende de qualquer contacto físico,
de um golpe menos humano, de uma insistência corporal.
Está muito longe de ser tudo isso.
Está no fim de todos os teus pensamentos.
A queda é uma espécie de recusa face a um determinado momento.
Perante ti sou capaz de cair como um objecto
que escorregasse das tuas mãos.
É possível cair assim.
Quando fechamos os olhos, hás-de experimentar,
temos a sensação de perdermos o equilíbrio.
É preciso apertar os olhos, fazer com que o rosto fique pesado.
Riscar da penumbra o que ainda é legível, anular todos os sinais.
Não nos sabemos orientar se perdermos o sentido de tudo o que nos rodeia.
Não temos nada à nossa disposição que torne o vazio mais suportável.
Tudo o que existe, existe como se estivesse suspenso no tempo,
indiferente a qualquer presença.
Nada passa através das palavras. Tudo tem início nas tuas mãos,
para substituir a falta de uma luz, de uma razão, de um prazer.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)