agosto 25, 2004

QUIETUDES

Quem nos visse pensaria. Um dia.

Colocava a cabeça no teu colo e esperava que me cofiasses o cabelo. Fechava os olhos e abria o meu coração para ti. Tu não censuravas nada do que eu dizia e escutavas-me até eu não ter nada mais no peito para contar.
Idealizavas, com as unhas sobre o meu pescoço, desenhos- sonhos imperfeitos e dizias adoro-te, que nos meus braços morrerias: eu pensava que de qualquer outra forma também eu morreria, que queria e gostava de um dia sucumbir no teu regaço. Uma estúpida e deprimente canção de amor percorria-nos cada veia do nosso corpo e nós quietos, em surdina a escutá-la, quase enganávamos quem nos visse: talvez pensassem que nos amaríamos. Um dia.

Flor

Queria passar esta noite contigo, minha flor. Ter-te junto ao peito e inalar o teu cheiro: averiguar se este é signo de desejo, saudade ou descoberta. Sentir-te desde as pequenas raízes e acariciar cada pétala: catalogar cada uma delas para lhes dar o meu nome em latim. Registar a patente para que todos saibam que espécie de homem sou. E assim encontrar-me em teu corpo para fazer da tua beleza a minha imortalidade nas gerações que hão-de vir.

(Paulo Ferreira- CARTAS A MÓNICA. Fotografia de Bruno Espadana.)

Publicado por void em agosto 25, 2004 06:40 AM
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