agosto 23, 2004

NOITE SECRETA


(Fotografia de José Marafona)

há quem acredite que mal a aragem forasteira agite os pedaços simbólicos e melódicos do espanta-espíritos e produza o som cristalino da serenidade, o mau espírito é derrubado e permanecido fora das quatro paredes da casa para que assim possamos viver em harmonia. o vento dá forma aos tecidos azulados das cortinas. envolve-se nelas e trá-las para dentro, para logo depois as puxar para fora. o quinto elemento que é, geralmente, mais comprido e situado no meio dos quatro, dá vida aos outros enquanto é empurrado e levado a acariciar os que o rodeiam.

quero ter muitos deles na nossa casa.
um espaço musical de reflexão onde nos sintamos em paz com a natureza. saber infiltrar-me pelos canos melodiosos da essência universal e escutar o silêncio cantado da vida.
escrever e amar sobre os tectos vazios da casa.
uma casa somente.
uma casa nua, despida, onde o sol da tarde se deita espalmando-se pelo soalho tingido de vermelho dourado, e por onde a areia entra deixando à vista o corpo do mar.
tocar-te e saber-me a mar.
descobrir a tua pele branca sobre o luar cintilante.
uma lua cheia que nos enche o peito.
deslizar os meus dedos pelos teus lábios como se pintasse o pôr de sol sangrento.
rastejar-me pelas dunas macias de teu ser constelar e embalar-me tempestuosamente dentro de ti como as furiosas ondas apaixonadas de encontro às muralhas rochosas numa noite de tempestade.
noite secreta.
uma praia deserta.
uma casa que pertence ao mar.

(Texto da autoria de Dina Costa Reis editado, originalmente, em Memória Futura.)


Publicado por void em agosto 23, 2004 06:25 PM
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