
(Fotografia de Margarida)
sinto-me mal, disse ela. juro que me sinto como se estivesse numa estação de comboios, mas à espera da morte. e no entanto tenho este sol todo a aquecer o meu cabelo selvagem. tenho este mar a enrolar-se de espuma a meus pés. estás a ver aqueles dois barcos a chocarem um no outro? somos nós. eu digo qualquer coisa e tu destrois o que eu digo. estou farta de ti. que maneira é essa de me olhares? não sou eu que estou dentro dos teus olhos. põe os óculos e esconde a mentira desse brilho que me atinge. à noite vais brincar com o meu corpo. beijas-me os seios e sentes-te voar num balão renovado de amor. vai para longe, homem. procura o irreal. ama o falso. estou a ficar seca e impaciente. estou farta de esperar nesta estação abandonada onde nada acontece de novo. as palavras são sempre as mesmas para dizerem coisas esquecidas ou sem importância.
(Texto editado, originalmente, em Memória Futura.)