
(Fotografia de Michel Bayard)
Passavam 7 anos mas ele não esquecia. A dor ainda amargava atroz no peito subindo à cabeça, tornando-a cheia e pesada. Como um travo amargo no fundo da boca seca. Faziam sete longos anos desde o dia em que ela partiu. E desde esse dia em que ele correu revoltado para o meio da floresta, nunca mais voltou. Sentou-se a chorar num tronco. Negou tudo o que conhecia. Negou o tempo que passava, os dias que corriam com o sol a gratinar-lhe a face. Negou a chuva, os insectos que o mordiam, chupando o pouco sangue que ia mantendo, negou a dor das feridas que o tempo abria e a dor das feridas que o tempo não fechava. Negou a sanidade mental.
Saciava a sede com as lágrimas que vertia, matava a fome com as folhas que o vento lhe atirava à cara.
Com o tempo, coisas estranhas se passaram. Algures um dia acabou por deixar de ser homem sem saber ao certo quando foi que morreu, ou até se morreu. As raizes das arvores cresceram nele, aproveitando a sua imobilidade insana. Todos aqueles anos sentado na mesma posição onde um dia se sentou a chorar até as lagrimas na face secarem. Nele as raizes penetraram, sugando o sangue para viver, misturando-o com a seiva. Cresceram ervas nas suas cavidades, os ramos das arvores vazavam-lhe o corpo e o olhar ficou vidrado numa expressão estranha de agonia e paz... de abandono.
(Texto da autoria de "D. Quixote". Editado, originalmente, em Nox Scriptum.)
Publicado por void em agosto 21, 2004 08:37 AM