Com os poemas que se seguem, dou por concluída a edição de um conjunto de escritos onde o Erotismo é o tema dominante, particularizando-se naquela que é a produção de conteúdos e imagens de si resultantes, relativos a um tempo e espaço específicos. Procurei com estas 4 edições, antecedidas de outras publicadas na obra em questão (ver referência bibliográfica), divulgar poesia diferente daquela que é mais comum apresentar, enriquecendo-a/complementando-a com pinturas/iluminuras que, baseadas em realidades (ou melhor, suas representações/sugestões) espaciais do mesmo âmbito, sugerissem ambientes que, de facto, estão subjacentes. Registo que foi uma experiência interessante pelo que de mais-valia veio trazer aqui ao blog.
Mas... sem mais delongas... atentemos no que ai vem:
37.
Mesmo agora o meu espírito regressa
Ao seu leito Rio e danço entre as suas
Companheiras estreitando os seus corpos
Graciosos perdendo-me por fim
Entre as coxas da minha amada
38.
Mesmo agora ignoro se ela é parecida com Xiva
Ou alguma criatura criada pela maldição de Indra
Ou a esposa de Krisna ou se Brahma
Lhe deu vida para enfeitiçar o mundo
Ou para ver entre as jovens um clarão
39.
Mesmo agora ignoro se alguém neste mundo
Poderia descrever esse corpo
Que só a mim se desvendou Quem
Quisesse descrever essas formas voluptuosas
Só se conhecesse alguém que a igualasse
40.
Mesmo agora vejo os seus olhos
Escurecidos pelo antimónio
Os lábios ardentes os brincos
Agitando-se nas orelhas o corpo
Curvado devido ao peso dos seios
Sem que eu a possa possuir
41.
Mesmo agora se pudesse
Beijaria sem cessar esse rosto transparente
Como a lua de Outono capaz de roubar
O coração dum eremita Como não
De ter roubado o meu

42.
Mesmo agora sacrificaria tudo
Se me fosses permitido regressar
A esse santuário de prazer
Perfumado com essência de flores de lótus
Húmido ainda de esperma perante
O qual se prostrou o deus do amor
43.
Mesmo agora neste mundo
Onde os sinais de beleza se defrontam
Encarniçadamente o meu coração
Acredita que ninguém conseguirá
Eclipsar a beleza da minha amada
44.
Mesmo agora sobre as ondas frementes
Do rio do meu espírito a minha amada desliza
Como um cisne real imputando
Às carícias fugidias dos grãos de pólen
A sua ligeira fadiga
45.
Mesmo agora sonho com essa princesa
Filha do mais nobre dos reis
Com os seus olhos ardentes de desejo
Criança que um dia desceu dos céus
Filha dos músicos celestes dos génios dos cantores
Divinos dos deuses e da serpente-virgem
46.
Mesmo agora não consigo esquecê-la
Ao acordar curvando-se perante o altar
Os seios como cântaros cheios de néctar
O corpo com adornos coloridos

47.
Mesmo agora recordo a beleza doirada
Do seu corpo sugerindo fadiga
Para não parecer impudica
Perturbada pelos meus beijos apaixonados
E pelo contacto das nossas coxas
Ela deixava- como uma planta por onde
Sobe a seiva- que o desejo a possuísse
48.
Mesmo agora recordo como era implacável
Na batalha sem armas do amor
Como nós apesar de enlaçados
Nos conseguíamos levantar e deitar
Sem o apoio das mãos Recordo
O sangue das mordeduras nos seus lábios
E dos arranhões nas suas coxas
49.
Mesmo agora não consigo imaginar
Como poderia suportar a dor da separação
Só a morte- que ela chegue depressa-
Poderá dissipar essa dor
50.
Mesmo agora Xiva não rejeita o negro veneno
A tartaruga transporta no dorso a terra
O mar alberga terríveis fogos
A mim só me resta cumprir o prometido
[Jorge Sousa Braga (Introd.)- OS CINQUENTA POEMAS DO AMOR FURTIVO E OUTROS POEMAS ERÓTICOS DA ÍNDIA ANTIGA]
Estou a pensar colocar mais tarde no meu blog um ou dois destes poemas.Espero que não te importes.De qq modo é óbvio que irei colocar que os tirei daqui!
Afixado por: Melawen em agosto 3, 2004 03:25 PMEstás absolutamente à vontade. Retira do Void tudo o que quiseres. Sou muito liberal relativamente a isso.
:)**
Afixado por: Sandra em agosto 3, 2004 03:42 PM