julho 29, 2004

TODOS OS MOMENTOS AO AMANHECER


(Autor desconhecido)

hoje vi a noite tornar-se dia. podia ser ontem mas foi hoje. e eu tive frio. tive muito frio mas soube que tinha de aproveitar

todos os momentos

pois amanhã, podia já não estar ali. e eu vi. vi as ruas indistintas a nascerem da claridade. vi os céus negros de tempestade e a negrura anoitecida a verterem clarões de azul esbranquiçado que lembravam os dias das viagens longas, quando na madrugada acordávamos com os pássaros e com os padeiros. vi uma noite de verão a morrer para o dia. e foi fresco. não foi a podridão súbita dos corações daqueles a quem a solidão visita mas a frescura do rebentar da luz. uma luz que ao principio tremeluzia, ténue e humedecida, e que depois cresceu e cresceu, varrendo o mistério das ruas, entre os becos sem saída e os caixotes de lixo derrubados, e que inundou os corpos daqueles que acordavam ainda ensonados para a vida na terra sem a lua. eu observei e como se pela primeira vez, entrei dentro do tempo e tornei-me parte dessa morte, desse renascer, dessa transformação magnífica que se repetia interminavelmente, todas as vezes como se fosse a primeira vez, até alguém fechar a luz e o mundo acabar para quem o vê.

but not for me yet.

desviei o olhar daquele céu esburacado pelos focos luminosos de uma lividez divinal e olhei para o meu lado. o lado das pequenas coisas. e percebi que, por vezes, precisamos de olhar para as pequenas coisas para descobrirmos a nossa verdadeira grandeza.
naquele momento não houve lágrimas, não houve o peso no coração que molesta o que temos cá dentro mas sim a grandeza de crescer, de acabar, de pertencer, de ser, de poder, de viver. de viver. de sentir as veias a arroxear devido ao frio e os pêlos a eriçarem-se pelo corpo acima e a ponderada expiração entre golfadas de brisa matinal e o silêncio. um silêncio que não possuía palavras porque estas seriam demasiado impuras para a sua magnitude, para a sua dimensão sobrenatural.

vai à procura e permita-me que te diga: escuta o silêncio. escuta o silêncio da vida.

(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)

Publicado por void em julho 29, 2004 09:04 AM
Comentários

Blogue muito interessante que preciso de explorar com mais demora. Cheguei aqui pela Zen.

Parabéns Do Portugal Profundo.

Afixado por: António em julho 29, 2004 11:08 AM

Só posso desejar que voltes, António, e que deixes a tua marca.
Obrigada pelas tuas palavras.

:)

Afixado por: Sandra em julho 29, 2004 11:28 AM

In your free time, visit the sites about...

Afixado por: em dezembro 2, 2004 04:13 AM