
(Fotografia de Urs Kahler)
a fazer nada como sempre [como se faz nada? não se fazendo algo, eu acho] cuspo-me para dentro de uma taça de gelado. há mãos encarquilhadas, esguias e monstruosas a penetrarem a solução viscosa de pedaços nus. meus lábios gretados a engolirem-se depravadamente num acto de canibalismo sexual. uma janela aberta sobre uma parede negra. negra e lisa. húmida e cavernosa. a hora de adormecer. quando me deito, os ossos entrelaçam-se numa comunhão bastarda de ideias decompostas. um puzzle de peças incombináveis a insultarem-me a razão [sei - não sei] um espanta-espíritos que nada faz pelos mortos racionais. labaredas de palavras loucas a conspurcarem-me as viragens do sono entre o descanso da mente. não há descanso. viravoltas pegajosas nos pesados pensamentos insolentes. estafadas luas em torno de minha criatura desassossegada. hediondos vermes de sussurros a maldizer o meu estado espiritual. horas de um tempo que me entorpece a alma e me cansa o corpo. um hórrido momento de evocação que me assombra o peito e que me empalidece o rosto e que me encurva a visão para a escuridão tenebrosa de um inferno alucinante. o aperto do sangue nas veias saltitantes a desejar-me mórbidos episódios de destruição [destruir-lhes ou destruir-me?] enquanto pequenas cápsulas de instantes fotográficos, ganham vida e infiltram-se pelos meus ouvidos como gumes de punhais a despenharem-se num abismo, estilhaçando-se pela minha mente, pelo meu cérebro que fervilha à procura do verde. o verde idílico dos pastos nas tardes amenas de verão. o vento que se aloja nas tenras folhagens verdes dos carvalhos, das bétulas e dos castanheiros e que espalha as suas essências mágicas pelas terras virgens de ninguém. existe um lugar, dentro dos outros lugares, liberto do tempo e da mão emporcalhada do homem, onde a pastagem cresce rápida e desordenada, livre de qualquer naifa assassina, e onde os rios namoram os galhos de árvores e satisfazem as bocas sedentos de seus visitantes, onde a água reflecte os focinhos dos mais atrevidos e por onde os raios de luz deliciam até aos mais afastados e aos mais fracos cantinhos de terra isolada. um lugar que visualizo por entre as sombras demoníacas do delírio, tentando atenuar a angústia e por fim repousar.
(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)