(Fotografias de Sally Russ)
as sombras roedoras dos teus passos pela casa vazia. deixas os sorrisos em cada passagem silenciosa e as palavras pregadas às paredes nuas. a casa alucina-se. a tua mente desfila pelos corredores assombrados à procura das memórias. quantas estrelas vês cair no parapeito da janela quando o lento respirar dos inocentes atravessa o quarto? apanhas as estrelas na tua mão a guardar um espaço para o meu colo. eu olho-te da chama invisível que embate no luar invasor, entre as cortinas soluçantes, e vigio o teu sono agitado, pecando contra a fragilidade existencial do João-pestana.
deixas-te a sós com as marionetas de papel teatral e cercas-te nos muros do tempo para que este não custe tanto a morrer. trazes para dentro da casa os depósitos de restos emocionais e as minhas mãos crescem dentro do teu peito, envolvendo-o, apertando-o, esmagando-o, afogando-o nas labaredas ardentes da querença. querer-te forma palpável a preencher as falhas corroídas da presença até esquecer o sabor amargo da ausência.
os consistentes murmúrios da cidade ainda vagueiam pelos cantos ocos das divisões. os teus pés descalços gelam de encontro às lajes rijas, uma frieza inconsolável. a camisa alarga-se pelas esquinas dos móveis e deixa-te um espaço incorrigível, junto ao peito, onde eu perdi o meu coração.
corto a insónia no instante em que me deito sobre o teu corpo e a minha figura se estende pelos teus dedos dos pés até aos dedos das mãos e os meus cabelos se soltam na concavidade fofa da tua almofada e toda a minha pele veste a tua, os meus lábios beijam os teus, o teu ar solta-se pelas minhas narinas, a minha visão inunda-se pela tua íris e os nossos sonhos entornam-se uns aos outros. estamos em uníssono na mesma barca do sono. fechamos os olhos e por fim a casa adormece enlaçada nas nossas mãos vazias.
o silêncio.
(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)
Publicado por void em julho 27, 2004 08:39 AM