julho 25, 2004

CAPACIDADE DE RENOVAÇÃO

Eduarda

E, de cada vez que tentavas fugir, eu agarrava-te. Voltavas a ficar em cima de mim. Voltavas a pôr o desejo em marcha. Fiquei viciada na tua pele. Inesperadamente. No teu olhar na cama. Nessa tua incapacidade de dizeres não. Nessa tua vontade de me levares para outro lado, um lado melhor. Com todo o prazer. A tua segurança e a maneira como desvias os olhos quando a conversa se torna mais séria. Olho para ti e pergunto-me o que sou. O que estou aqui a fazer. O que tu me estás a fazer. Há mais de um ano que não sei nada disto. Que não sei quando esconder as minhas coisas, o meu ser. Quando mostrar. Mas tu és uma mulher e tudo parece diferente. Dizes que estás numa ordem diferente do resto, que já nada se encaixa aqui. Queres dar-me palavras novas. Eu aceito-as, porque tu me dás contentamento. Porque me puxas e eu vou. Porque se soltam as coisas cá dentro e eu vibro. Pasmas-me. Pasmo-me. E tudo se mistura no prazer. Não quero sair do quarto. Não quero sair do teu corpo. Quero ficar aqui e quero que estejas comigo. É maravilhoso. De onde isto surgiu? Esta capacidade de renovação que não sabia possível. Este leve esquecimento de tudo o que me atormentou e, por certo, ainda me atormenta. Para onde me levas?

Nenhuma de nós confessa, mas estamos atrapalhadas. Atrapalhadas, depois do amor, atrapalhadas nas palavras que se devem dizer. Que se querem e não se querem dizer. Atrapalhadas. Não sabes bem onde pôr as tuas mãos ao dormir. Uns minutos antes de adormeceres, quando já estás mesmo quase, quase a dormir, deixas de ficar atrapalhada. Abraças-me por completo. Pões a tua perna por cima das minhas. Eu rio-me. Quer dizer que sou tua? E falas, dizes coisas, baixinho, que não etendo. Eu beijo-te. E tu sorris. Quando estou contigo assim, sinto-me maravilhada. Não compreendo o que me está a acontecer e apetece-me ficar para sempre assim. Dás-me novas direcções, mas tu própria pareces não conhecê-las. E penso que nada será alguma vez comparável a isto, aconteça o que acontecer. Nem ele, que lá está, como uma dor já minha. Preso à minha identidade. Nem ele pode afectar-nos. Pergunto-me porquê. Se serás tu, com essa tua generosidade mascarada de pretensão. Se será este momento, com o renascer para o amor, o fim da dor. Se será por seres mulher, com toda a novidade e surpresa que isso implica. Pergunto-me. E não chego a nenhuma conclusão.

(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM. Fotografia de Christian Coigny)

Publicado por void em julho 25, 2004 10:05 AM
Comentários

Bom dia! (às duas da tarde!)
Pelos vistos dormiste bem, coisa de que não me posso gabar que aqui nem na varanda!
Estes bonequinhos são uma delícia, sabem-me logo a piquenique, woo wooooooo, navio de roda rio a baixo! Woo woooooo!... até parece um combóio em cima de um bolo de casamento!
(esta é a minha faceta que não conheces, creio)
Beijo e não te atrapalhes!

Afixado por: Pilantra em julho 25, 2004 02:18 PM

:)))))))))))
Ok, Pilantrax, ok...

Afixado por: Sandra em julho 25, 2004 03:59 PM

Ora aqui está uma fotografia que ficaria bem mais bonita se não tivesse tantos arrebiques.

Afixado por: Pilantra em julho 26, 2004 06:11 PM