Gritos embalsamados
(Execrável)

o pesadelo retoma a realidade noctívaga. as vestes moribundas do luar ocultam-se nas sombras matreiras da cidade. o cheiro ácido da chuva sobre a relva domesticada, os passos rastejados dos que caminham para o dia, os copos das cerveja partidos no chão de beatas pisadas. o crescente soluçar da morte em cada esquina desafortunada. as lamúrias doentes dos que se fecham dentro das quatro paredes infernais da alma. os corpos a chocalharem uns contra os outros. a noite a sufocar, a sufocar, estrangulada. gritos amarrados ao céu-da-boca. estrelas que caiem sem que alguém faça um desejo.
as estrelas estão aprisionadas na escuridão dos céus e só na morte encontram uma escapatória ao buraco negro do infinito. quem fará um desejo por elas quando estas rasparem a superfície dos sonhos?
A noite chega...
(D. Quixote)

A noite chega e com ela a escuridão. A fobia de mais uma noite de tormento, o confronto com os meus demónios. O vazio desta cama solitária, a claridade incómoda do pensamento, e os ruidos negros do silêncio do meu quarto, as trevas... estas trevas que me rodeiam, que se infiltram em mim e me fazem temer os monstros que guardo dentro do meu peito pesado e comprimido.
Tudo é um silêncio insano, violado apenas por um tiquetaquear insolente e endoidecedor de relógio de parede e pelos gritos na minha cabeça. O meu desassossego dá lugar aos fantasmas que me visitam. Sombras e vultos desconhecidos fitam-me estarrecidos aos pés da minha cama, como a morte que me espera, inevitavel um dia, uma noite.
A noite chega e nunca mais acaba. Com ela a minha alma perde-se aos poucos, a minha sanidade já cá não está. O meu ser liquidesfaz-se putrefacto num leite negro sobre um manto de folhas secas e terra preta em que a minha cama se tornou, os gritos esvoaçam à minha volta como fumo que me envolve e intoxica cortando o ar e a respiração... e noite parece não ter mais fim.
Acordo... mais uma noite, mais um pesadelo...
(Textos editados, originalmente, em Nox Scriptum. Fotografias: autor desconhecido e Val, respectivamente.)
o desejo faz-se dentro de nós, dentro da nossa cabeça. Ainda somos livres de sonhar! Por isso cada um é responsável pelos seus sonhos.
Sonhar a morte não é preciso: temos toda a eternidade para a viver, qualquer forma que tenha. A vida sonha com a vida, porque só a vida conhece. O pesadelo é da vida, não da morte.
Quem quer que seja que exista, existe vive. Existir morto é uma fantasia da vida, como ser feliz. Eu sou feliz porque tenho a tua mão na minha mão. E no entanto, terei? É a tua mão ou é apenas aquilo que imaginei ser a tua mão? As folhas que piso, em que as reconheço para lhes chamar folhas? Serão como a tua mão? Sou feliz? Ou tenho uma ideia de ser feliz? O que é a minha felicidade? Ter-te? Ter a tua mão? O que é ter?
Aquilo que me interessa para ser feliz é eu estar. Estar em ti? Estar contigo? Como se provoca isso? O que é ssr provocador? E de que valerá isso? Valerá isso a pena? Serei feliz? O que preciso para ser feliz? Sentir-me assim, sem gestos nem provocações, sem dar por isso. Porque quando se dá por isso, já se não é mais feliz.
É o amor uma forma diferente de ser feliz? Posso ter um orgasmo sentindo a tua mão ou olhando-te nos olhos? provoco-o em ti? E se o tivermos em simultâneo somos felizes, amamo-nos? E se fizermos sexo e o tivermos passamos a amarmo-nos no instante de o termos? E se eu o conseguir 30 mil vezes contigo e se tu só o tiveres vinte mil vezes comigo eu sou 10 mil orgasmos mais feliz do que tu? E as vezes em que uma de nós não o consegue em simultâneo mas fica feliz porque a outra o teve? E a felicidade do orgulho da posse, de o teres tido comigo e ninguém mais? E o sentir que aquele corpo exausto se me entregou, se me entregará de novo se sentir em mim o desejo dele? E eu - possuí? Ou entreguei-me? Se não me entregar, nunca te possuirei. Como preciso possuir-te para me entregar. De outro modo, não serei feliz.
É isto a felicidade? É isto o amor?
Os corpos vivos são assim. A felicidade é aquilo que fica depois de se viver assim. E que um dia acaba. Mas nesse dia isso terá alguma importância? Acabou? Ou nasce de novo? Para mim nasce de novo, porque só acaba quando eu acabar. E daí para a frente, saber lá: «O seu a seu tempo».