julho 20, 2004

A VIDA COMO UMA ESTALAGEM


(Fernando Pessoa)

Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde ela me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderei considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.
Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.

(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)

Publicado por void em julho 20, 2004 08:16 AM
Comentários

Fernando Pessoa
diria:
Milhares de abraços da sua, sempre muito sua,
Oféliazinha

Afixado por: Oféliazinha em julho 21, 2004 12:56 PM

Pessoa é aquele homem que me invadiu, desventrou, e me expôs inteiro na sua poesia. Daí que lê-lo é quase intimidante, é uma poesia que me denuncia, como se me metesse completamente nu, por dentro e por fora, na rua.

Afixado por: NF, o imbecil em julho 21, 2004 09:43 PM