(Trabalho da autoria de Lucio Valerio Pini)
eu não quero saber da pele cheia de piquinhos como a barba cortada. não escrevas os defeitos perfeitos destes seres imperfeitos como se fossem inadequados à sua condição. eu sobreviria à custa de uma só palavra que brotasse de teus lábios brincalhões e tu nunca a dirás vezes suficientes para que consiga viver do silêncio. sou uma miúda insatisfeita e dos meus dedos incansáveis surge uma necessidade insaciável de exprimir a minha afecção, a que nasceu contigo, por ti.
uma magia sedutora no olhar apagado da memória. entre o teu corpo abandonado e o tremor sôfrego do meu, largam-se teias douradas de imagens incertas, um amor que se tece à luz exibicionista da noite. uma espera que não tem asas para acabar. é no bailado fantasmagórico das palavras, quando a lua chama para si o último amante inebriado que erra às vestes de seu luar, é que o meu amor escreve sobre o dia em que o seu barco foi levado por uma misteriosa corrente até às minhas águas de sais espinhosos. enquanto ele se enrosca nos peitos escritos da sua apaixonada, abrindo o coração às paginas inquietas do ecrã, eu cumpro-me no silêncio, encerrada ao mundo exterior. espero e ganho crosta. solidifico os canais da agitação citadina e fecho as minhas veias palpitantes à passagem do calor. de repente o coração pára como se tivesse sido abalado por um corte de energia. não encontro mais palavras. nada mais que reste para restaurar a fonte de potência desligada. são nessas alturas que temo pela escuridão. um frio sepulcral no abismo onde dou caras comigo própria e tudo o que descubro é o nada que alimento. não escutas e eu sei que é porque não falo. porque não estás aqui.
segundos. o texto acabou. nós voltamos e contigo a carga energética.
(Texto da autoria de "ela". Editado, originalmente, em Memória Futura.)
Publicado por void em julho 18, 2004 07:50 AM