julho 17, 2004

OUTRO DIA, OUTRA NOITE


(Autor desconhecido)

outro sol que expulso do meu quarto, outra luz que desgosta as minhas trevas, outro dia que me mata o ser. vagueio escondida nas dobras da escrita encarquilhada e novamente será novamente a palavra mais odiada. cortar-me a vida como se corta o queijo. pequenas fatias a fervilhar na tosta rica. cortar-me o sangue como se corta a raiz deste renascer sangrento. tantas foram as vezes em que vi a minha vida repetida num grande ciclo merdoso onde a morte é a única saída possível. só de pensar que outra lua esperará por inundar o meu refúgio louco entre apalpadelas cegas de luar e que por aqui permanecerá na noite mais longa do mundo onde o tempo é uma palavra inexistente a juntar à vida e onde a solidão é um segundo a voar para o seguinte, exaspera-me os sentidos, desespera-me os restos de sanidade deploráveis e bate-me na cabeça como se ondas mortíferas eclodissem de encontro às rochas afiadas da vertente que é a minha racionalidade.
pensar em escapar?
outro dia que arranha as grades da casa que se tornou a alma a entornar as minhas palavras na reinvenção de um tubo de escape para a escuridão mais tenebrosa da existência que segue com a morte do sol.
despejar a vida com a luz que adormece no horizonte e saber que nunca parará.

(Texto da autoria de "Execrável". Editado, originalmente, em Nox Scriptum.)

Publicado por void em julho 17, 2004 08:50 AM
Comentários

Texto doído/realidade sofrida - quantas vezes me sinto assim?! A foto é bonita e ilustra soberbamente o texto. Beijo.

Afixado por: Pink Lady em julho 17, 2004 10:08 AM