junho 27, 2004

POEMAS DO AMOR FURTIVO... DA ÍNDIA ANTIGA (1)

Na sequência da edição já feita de "outros poemas eróticos da Índia antiga" apresento, hoje, o primeiro conjunto de 12 poemas, da totalidade de 50 daqueles relativos a "Poemas do Amor Furtivo", constantes na publicação abaixo indicada.
Em posts futuros continuarei a apresentação de conjuntos, todos, acompanhados por imagens do género das agora constantes.
Atentemos, então, no que se segue:


1.

Mesmo agora que tudo se desmoronou
Recordo a minha amada luminosa
Como uma grinalda de douradas flores
A pelugem negra que desaguava no seu umbigo
O corpo fremente do desejo ao acordar


2.

Mesmo agora se uma vez mais pudesse ver
O seu rosto jovem e fresco como a lua cheia
Os seios opulentos o corpo
Que as flechas do amor deixaram a arder
Saberia como debelar essas chamas


3.

Mesmo agora se a visse de novo
A essa rapariga de olhos de lótus
O corpo soçobrando devido ao peso dos seios
Estreitá-la-ei entre os meus braços
E beberia da sua boca como um louco
Como uma abelha insaciável sugando uma flor



4.

Mesmo agora recordo o seu corpo
Rendido ao cansaço depois do amor
Sobre as pálidas maçãs do rosto
Caíam os anéis dos seus cabelos
E como que para ocultar o nosso segredo
As ternas lianas dos seus braços
Entrelaçavam-se ao redor do meu pescoço


5.

Mesmo agora recordo os seus olhos enormes
As pupilas frementes depois de uma noite de prazer
Um cisne real no lago de lótus da paixão
Despertando ao amanhecer cabisbaixa de vergonha


6.

Mesmo agora se pudesse contemplar
Esse corpo esbelto consumido pela separação
Os olhos dilatados quase até às orelhas
Cingiria as suas coxas entre as minhas
Cerraria os olhos e não afrouxaria nem
Por um instante o abraço prolongado


7.

Mesmo agora recordo a minha amada
Na dança selvagem do amor
Curvada devido ao peso dos seios
O corpo esguio consumido pelo desejo
O rosto transparente como a lua cheia
Submersa pelos seus longos cabelos


8.

Mesmo agora recordo a minha amada
Deitada no leito o perfume que exalava
A mistura do almíscar e do sândalo
Sobre os seus lindos olhos o bater dos cílios
Assemelhava-se aos beijos de dois pássaros
Durante o acasalamento


9.

Mesmo agora recordo esses olhos lascivos
E os lábios enrubescidos de vinho
No momento da penetração
O corpo gracioso oleado com açafrão e almíscar
E o sabor a betél e cânfora na sua boca


10.

Mesmo agora que o fim se aproxima
Recordo o rosto da minha amada
Perlado de gotas de suor o corpo
Lustroso da cor do açafrão brilhando
No disco lunar liberto do demónio do eclipse


11.

Mesmo agora recordo a minha amada
Cavalgando por cima de mim
O seu esforço de vaivém constelava
A sua pele de cachos de pérolas
Gotas claras e espessas de suor
Recordo o pendente de ouro
Roçando as suas maçãs do rosto


12.

Mesmo agora não me sai do espírito
Aquela noite em que enquanto a possuía
Espirrei Agastada absteve-se de me desejar
"Longa vida" Recordo todavia como silenciosa
colocou na orelha um amuleto de ouro


[Jorge Sousa Braga (introd.)- OS CINQUENTA POEMAS DO AMOR FURTIVO E OUTROS POEMAS ERÓTICOS DA ÍNDIA ANTIGA]

Publicado por void em junho 27, 2004 09:21 AM
Comentários

como a série anterior com que nos brindastes, esta é igualmente magnifica!! Fico à espera dos restantes... Beijinhos, tem um dia muito feliz!!

Afixado por: Maria em junho 27, 2004 12:39 PM

Belos poemas e belas imagens.

parabéns pela recolha.

Afixado por: João Norte em junho 27, 2004 02:06 PM

Maria e João: obrigada pelo estímulo.
Em breve teremos um novo conjunto.

:)**

Afixado por: Sandra em junho 27, 2004 02:56 PM